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Varsóvia, a corajosa

Mesmo sendo descendente de poloneses, nunca tinha pensado seriamente em ir para lá. Naquelas férias, tinha pensando em ir para a Provence, mas, como estava caro, num impulso, mudei o roteiro e resolvi conhecer a terra de onde veio a família do meu pai. Decisão impulsiva e quase sem nenhum planejamento, algo impensável para a minha pessoa em um passado nada distante, um sinal das transformações pelas quais a polaca que escreve essas mal digitadas linhas estava passando.

Pela primeira vez na vida de viajante, meu voo de conexão – que deveria sair da Alemanha às 14h – foi cancelado, o que me fez chegar em Varsóvia, a capital do país, tarde da noite. Meu hotel ficava em frente ao Palácio da Cultura e Ciência, um dos pontos turísticos de lá, o que me fez ir dormir com uma sensação de “puxa vida, a polaca está mesmo na Polônia!”. No café da manhã, uma senhorinha desandou a falar comigo em polonês, crente que eu entenderia. Eita, ali eu não tinha cara de gringa! 😊

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Me sentido mais polaca do que nunca, fui caminhando até a Cidade Velha (Stare Miasto). Cheguei lá quando um grupo de Free Walking Tour (não há preço fixo, você paga no final de acordo com o que achou do passeio) estava saindo da praça. Resolvi me juntar ao grupo e foi fantástico! A guia era ótima, e enquanto andávamos pela região da Cidade Antiga, fui tomando conhecimento da história daquela cidade tão sofrida e tão corajosa. No grupo, havia um jovem americano que tinha largado tudo para mochilar pelo mundo, a primeira das amizades que eu viria a fazer na viagem.

Durante o tour, fiquei sabendo que a Varsóvia foi quase que totalmente destruída na Segunda Guerra Mundial, e que a Cidade Velha que estávamos vendo, tão linda com seus prédios “antigos”, era na verdade uma réplica reconstruída graças ao apoio da população, que doou tempo e dinheiro para ter ao menos aquele “pedaço” da cidade tal qual era antes da destruição causada pelos nazistas. Segundo a guia, um exemplo de crownfunding bem antes que o termo se tornasse conhecido. A arquitetura da cidade é uma espécie de colcha de retalhos, como vários estilos misturados. Ainda hoje, os prédios cinza construídos pelos russos são uma feia lembrança daquela época. Tirando o centro antigo, Varsóvia não pode ser definida como uma cidade bonita, como Cracóvia, tida como uma das mais belas da Europa. Mas, como disse a guia – não sem uma pitada de ironia (bairrismo, quem nunca?) – a “outra” cidade não foi quase totalmente destruída e se reergueu, literalmente, das cinzas.

No Castelo Real, há uma torre com um relógio. Ali, todos os dias um soldado toca clarinete na torre do relógio, na hora em que a torre foi bombardeada durante a guerra (não lembro o horário exato e não achei em lugar nenhum, mas era depois das 11h). Lembranças da guerra – cicatrizes de feridas tão profundas – estão espalhadas pela cidade toda, para lembrar e honrar os soldados e civis que morreram em Varsóvia durante a guerra. Em 1939, a cidade tinha cerca de 1.3 milhão de habitantes. Ao final da guerra, em 1945, restavam pouco mais de 400 mil pessoas.

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A guia, excelente, contou várias histórias interessantes sobre cidade. Fiquei sabendo que a sereia Sawa – cuja estátua fica na linda Praça do Mercado – foi “pescada” pelo jovem Wars no rio Vístula. Eles se apaixonaram e fundaram a cidade, “batizada” com uma junção dos seus nomes: em polonês, Warsawa. Sim, os poloneses também sabem ser românticos. 😉

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Também soube que o coração do compositor Chopin está enterrado na Igreja da Santa Cruz – com medo de ser enterrado vivo, ele teria pedido para que seu coração fosse retirado do corpo antes do sepultamento. Meio excêntrico, mas assim são os artistas, né não? Há outras referências a este famoso polonês pela cidade. No verão, há concertos gratuitos no Parque Lazienski, onde há uma estátua do músico.

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Continuamos a andar e chegamos na casa onde viveu Marie Skłodowska Curie, uma cientista polonesa ganhadora de dois prêmios Nobel, um deles por ter descoberto dois elementos químicos, o rádio e o polônio, esse último batizado em homenagem à sua terra natal. Casada com um francês, mudou-se para Paris, onde foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne. Um mulherão da porr@ essa polaca, hein?!

O tour da manhã terminou em um bar, onde a guia nos explicou que, ao contrário do que se pode imaginar, a bebida oficial do país não é a cerveja (pivo), e sim a vodka. Segundo ela, os poloneses bebem vodka quando estão felizes, para comemorar, e quando estão tristes, para afogar as mágoas. Então, basicamente, bebem vodka o tempo todo (bom, é fato que polacos são mesmo bons de copo). Ela contou, ainda, que o segredo para não ter uma ressaca dos infernos era intercalar shots de vodka com aperitivos bem gordurosos. Essa história toda só podia terminar de um jeito, né? Isso mesmo, um brinde com vodka polonesa, acompanhado de um aperitivo bem típico, pão caseiro com banha de porco e picles (lembra a história de ser gorduroso…então!). Resolvi não fazer desfeita e tomei o primeiro shot de vodka da vida. Na zdrowie!

Depois do almoço, haveria outro tour específico sobre a Segunda Guerra, que resolvi fazer para aprofundar algumas informações. O almoço foi num milk bar descoberto pelo Matt, meu amigo mochileiro, expert em encontrar lugares para comer bem e barato. Esses “bares de leite” são uma espécie de fast food polonês, frequentados, principalmente, por trabalhadores. O nome se deve ao fato de que, no período pós-guerra, a carne era racionada e a alimentação era composta, basicamente, por laticínios e vegetais. O milk bar em que almoçamos era diferenciado porque tinha um cardápio em inglês, uma raridade neste tipo de estabelecimento. Você paga no caixa e pega o prato no balcão. As mesas e cadeiras de fórmica, o altar com flores e as senhorinhas que serviam a refeição me fizeram lembrar muito da casa dos meus avós paternos, Vitória e Zefredo. Aquela sopa de legumes teve gosto de saudade.

O tour da tarde foi mais pesado, como era de se esperar, por conta dos horrores vividos ali durante a Segunda Guerra. Passamos por prédios onde batalhas importantes aconteceram, lugares onde civis foram executados (para pressionar a resistência, porque tinham irritados os nazistas ou, simplesmente, porque sim), monumentos em homenagem aos soldados, aos revolucionários que participaram do Levante de Varsóvia e até um para homenagear as crianças que apoiaram o levante e, por isso, perderam suas vidas. ☹

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Fomos até onde ficava o maior gueto judeu da Europa, que chegou a ter 380.000 pessoas – 30% da população da cidade, ocupando 2,4% do seu território. Essa área, hoje, é mais alta que o restante da cidade, porque foi reconstruía sobre a pilha de ruínas que restou depois que os nazistas destruíram o gueto. Lá, a guia lembrou do “Anjo do Gueto de Varsóvia”, Irena Sendler (Sendlerowa, nascida Krzyżanowska), que arriscou a vida para tirar mais de 2.500 crianças do gueto.

O dia tinha sido cheio de informações e reflexões. Resolvi terminar de um jeito leve, voltando até a Praça do Mercado, onde escolhi um restaurante com mesa na calçada (e vista para a estátua da sereia #muitoamor) e pedi meus dois pratos típicos favoritos, pierogi (pastel cozido, recheado com ricota) e golabki (charutos de repolho, recheado com arroz e carne). Estava tudo bem gostoso, mas os pratos feitos pela minha mãe e madrinha são beeeem melhores. Sabe como é, o tal tempero chamado amor.

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No segundo dia, fui conhecer o Museu do Levante de Varsóvia, que conta a história da luta armada do Exército Revolucionário para tentar libertar a cidade dos nazistas. A ofensiva começou quando os russos se aproximavam da cidade, que contava com seu apoio. No entanto, o Exército Vermelho acampou às margens do rio Vístula, e lá ficou esperando que os nazistas destruíssem os revolucionários, o que tornaria mais fácil para Stalin conseguir seu objetivo de expandir o comunismo na Europa pós-guerra. O Levante, que começou no dia 1º de agosto de 1944, durou 63 dias, até a rendição em 2 de outubro do mesmo ano. Neste tempo, estima-se que 16.000 mil integrantes da resistência morreram, juntamente com cerca de 60.000 civis, a maioria massacrada pelos nazistas como forma de pressionar os revolucionários. Após a rendição, Hitler ordenou que a cidade fosse evacuada, e sistematicamente destruída, quarteirão a quarteirão.

O museu – multimídia – é um dos mais impressionantes que eu já vi. O impacto foi tão forte que só depois que saí de lá percebi que não havia tirado uma foto sequer. O primeiro sentido mobilizado, logo na chegada, é a audição – gravações de aviões sobrevoando a cidade, bombas caindo e até um coração pulsando dão a ideia do horror vivido pela população naqueles dias. Há fotos, objetos e áudios obre a luta, além de réplica dos túneis de esgoto usados como esconderijo pelos membros da resistência. É possível, ainda, assistir a um vídeo que simula um voo sobre a cidade no fim da guerra – literalmente, um mar de escombros. Há vários testemunhos dos sacrifícios feitos pela população. Em um determinado momento, ouvi orações e cantos vindos de uma imagem de santo – as mesmas orações e cantos que eu tinha ouvido em casa, durante o enterro dos meus avós poloneses. Nessa hora, chorei. Entendi de onde vinham todo o orgulho e determinação dos poloneses que, mesmo depois de sofrer horrores inimagináveis, foram capazes de reconstruir sua cidade e recomeçar a vida. Assim são os poloneses da minha família, da minha comunidade: fortes, sem medo de trabalho, honestos, determinados e muito, muito orgulhosos de ser quem são.

Do museu, fui conhecer o parque Lazienki que, com seus lagos e o lindo palácio, foi um oásis perfeito para aliviar a alma depois das emoções da manhã.

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Antes de deixar Varsóvia, decidi aceitar a recomendação da guia e assistir ao jogo da Polônia contra a Alemanha, pela Eurocopa. O tour do dia anterior terminou em uma muralha com vista para o estádio de futebol de Varsóvia, onde, há alguns anos, a seleção da Polônia venceu, pela única vez na história, a seleção da Alemanha. Ao encerrar a história, a guia disse “eles não podiam ganhar de nós. Não aqui.” Ela disse que a cidade estaria muito animada e que valia a pena assistir ao jogo num dos bares do centro.

De fato, a cidade estava muito animada naquela noite de junho de 2016. O clima era de festa. Ruas cheias, caras pintadas, camisas da seleção, bandeiras do país – tudo pronto para torcer. Foi difícil achar um lugar, mas por fim achamos um bar com boa comida, bebida e vista para a TV. Nas mesas ao lado, poloneses quase enfartando durante todo o jogo. A Polônia jogou bem, e por vezes esteve perto de vencer o jogo. Uma das polonesas que assistia ao jogo no mesmo bar (e tinha cantado o hino em pé, com a mão no coração) puxou papo e contou a mesma história do jogo que a Polônia, jogando em Varsóvia, havia ganho da Alemanha. De novo, aquela frase: “eles não podiam ganhar de nós. Não aqui.”.

Torci como se polonesa fosse – como polonesa que, por descendência, sou! O jogo acabou em 0X0, mas o empate foi comemorado como vitória em final de Copa. Ao caminhar de volta ao hotel, andando pelas ruas cheias de poloneses celebrando com orgulho, entendi que algumas cicatrizes, por mais antigas que sejam,  nunca vão parar de doer.

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Sampa

Mudar para São Paulo nunca esteve nos meus planos, mas acabou acontecendo por conta do trabalho. Desde que vim para cá, já perdi as contas de quantas vezes me perguntaram se eu tinha me adaptado por aqui. A resposta foi sim, desde o começo, e isso surpreendeu muita gente. Afinal, aqui é tão diferente da minha amada São José dos Pinhais, com suas araucárias e toda aquela tranquilidade, né?

Então, é diferente mesmo. Tipo, muito! Mas, para mim, isso nunca foi um problema. Sempre fui uma pessoa do tipo “e”, não do tipo “ou”. Gosto de doce e salgado. De árvores e de prédios. De rock e de música sertaneja. De futebol e de livros. De drama e de comédia. De vinho branco e de vinho tinto. Nunca vi motivo para me limitar entre este ou aquele estilo, esta ou aquela turma, este ou aquele sabor. Então, o contraste de Sampa com minha São José (que continua lá, Congonhas te amo!) é muito bem-vindo. Sou feliz aqui e lá.

E como tem coisa para fazer aqui, mano do céu! A cidade não para, tem atrações para todos as tribos e bolsos. Gosta de arte? Opa, todas estão por aqui! Esporte é a sua praia? Tranquilo, só escolher e torcer. Business? No problem, vem que tem. Quer meditar? Inspira e expira. Ah, está querendo se atualizar, estudar? Eita, difícil vai ser escolher por onde começar. Quer comer bem? Seja você low ou heavy carb (eu na vida!), se deu muito bem!

Como sou a louca da lista, resolvi fazer uma com as coisas que mais me fizeram feliz desde que cheguei aqui, nesta Sampa que já tem lugar na cobertura do meu coração, do ladinho da cidade onde nasci. 😊

Saborear a cidade

Bem, não seria eu se não começasse falando de comida, né? O que não falta por aqui são bons lugares para comer bem, oh glória! Comida brasileira, e do mundo todo. Comida de rua, comida de chef famoso. Comida de boteco, comida de restaurante chique. Até tentei fazer uma lista dos lugares que queria conhecer, mas depois resolvi deixar a vida me levar e ir experimentando os sabores da cidade sem grandes planos.

A Vila Madalena é meu bairro preferido para as aventuras gastronômicas, por ser uma bela representação da diversidade culinária da cidade. Lá, é possível curtir uma feijoada em um restaurante simples, com mesa no quintal, comer petiscos com cerveja bem gelada nos botecos sempre cheios e, até, encontrar um jardim secreto no qual os donos (franceses) servem vinhos naturais em mesas compartilhadas debaixo das árvores. Ou seja, um lugar perfeito para uma pessoa do tipo “e”, como eu.

Ah, preciso abrir um parênteses para um dos meus crushes paulistas: as padocas, com seu pão na chapa e frango assado de fim de semana”. #muitoamor

Arte, a gente vê por aqui

Para começar, os museus. Eu gosto bem de um museu, e aqui tem vários. Destes , conheci apenas dois por enquanto. No Masp, um belo acervo permanente – com obras de Monet, Van Gogh, Picasso, Renoir e outros grandes artistas –, além de mostras temporárias. De quebra, fica na Paulista, e só isso já vale o passeio, ainda mais no fim de semana, quando as ruas são fechadas para os carros e abertas para as pessoas.

Na Pinacoteca, o prédio em si é uma obra de arte. Além disso, fica do lado do Jardim da Luz, fazendo do lugar um oásis na loucura da cidade. Quando estive lá, vi a exposição de Tolouse-Lautrec e, depois, almocei no café anexo ao museu, em uma das mesas com vista para o jardim. O dia estava ensolarado, foi um daqueles momentos perfeitamente felizes.

O capítulo música também trouxe experiências deliciosas. Fui aos shows do Bon Jovi e do U2 (suspiros, muitos suspiros). Jantei ao som de jazz na Vila Madalena. Almocei ao som de música francesa no Itaim. Assisti a um concerto do maestro João Carlos Martins, em pleno Beco do Batman, na Vila Madalena.

Fui a lançamentos de livros de amigos (que orgulho!), assisti um show de stand up comedy  e uma apresentação da ópera Carmina Burama. Nutri a alma de várias maneiras, e tenho fome de muito mais. #tudojuntoemisturado #gostoassim

Os prédios refletindo Sampa

Já fiz muito overposting com as fotos dos arranha-céus daqui. Meu, que cidade fotogênica! Ver os prédios daqui aquece o meu coração do mesmo jeito que ver os pinheiros lá de casa. É a marca registrada da cidade. Gosto especialmente dos dias de sol, quando as fachadas dos prédios refletem as nuvens e a cidade em seu fluxo incessante de carros (o trânsito é uma “treta” daquelas, odeio bem odiado, antes que me perguntem. Nada é perfeito, né?).

A Paulista é meu lugar favorito para namorar os prédios. No domingo, caminhar por lá é uma delícia. Os carros saem e dão lugar para as pessoas. Famílias e seus pets se misturam aos artistas que transformam a rua em um grande palco. O passeio rende bons momentos e belas fotos. #paraísodasselfies #quemnunca

A lista ficou longa, mas ainda falta coisa! Fui no estádio assistir ao jogo do Palmeiras, e arrepiei com o canto da torcida. Fui almoçar no Bexiga e me encantei com a igreja da Achiropita. Fui na feirinha da Benedito Calixto e me apaixonei pela feirinha. Descobri o metrô daqui e vi as distâncias diminuírem (sim, é bem cheio, mas os de Milão e Londres também são, né amores?).  Fui caminhar no parque (tá, fui encontrar uma amiga e sua linda filhinha, mas tá valendo. Não, não fui no Ibirapuera ainda…#mejulguem #umdiaeuvou #paz). Descobri uma igreja simples e linda perto de casa, onde peço que São Francisco cuide de mim e dos meus amados. E por aí vai, lista infinita, sobre uma cidade que não cabe em si.

Ah, sim! Está faltando algo muito importante. O tempero dessa mistura toda, o que faz dessa cidade um lugar que posso (também) chamar de lar: as pessoas! Já tinha amigos queridos aqui, que me ajudaram a me instalar e me fizeram sentir que tinha com quem contar. Depois, fui conhecendo tanta gente tão bacana, que me acolheu com seu coração generoso e esse sotaque que eu gosto tanto. Hoje, o número de amigos queridos (os daqui, os de lá, os de sempre) se multiplicou, que sorte a minha.

E foi assim, aos poucos, mas rapidamente, que eu me apaixonei por essa cidade. Uma história de amor que está só começando. 😉

 

Sem palavras 

Sempre fui apaixonada pelas palavras. Crush dos brabos, daqueles que a gente jura que vai ser para sempre. Me apaixonei tanto pelas palavras dos outros — os livros — que ousei dar voz às minhas por meio das mal traçadas linhas deste blog.

Escrevi loucamente por um bom tempo. Era uma terapia, um hobby, um exercício — tudo ao mesmo tempo agora. Tinha tanto para contar, tanto para dividir. Gostava de pensar nos meus textos como uma espécie de crônica da vida real: eu escrevia sobre o que eu via, vivia, sentia, sonhava. Um amigo definia meu estilo como prosa poética, e de alguma maneira me reconhecia nessa definição. Parecia um bom jeito de contar as minhas histórias: direto e reto, mas com uma pitada de delicadeza.
Escrever já era um prazer em si, potencializado pela troca com os “leitores”. Me emocionava quando alguém me contava que seguia o blog, que compartilhava de algum sentimento, que tinha rido de alguma história. Pode soar arrogante — e talvez seja mesmo —, mas me sentia um pouco como os autores dos livros que eu tanto amava. Era bom saber que as minhas palavras encontravam abrigo e ressonância em outros corações.

De repente, a vontade — ou seria a coragem? — de escrever sumiu. Fiquei sem palavras. O barulho interno era tão alto que não conseguia colocar aqueles sentimentos no papel. Não conseguia passar a limpo. Depois de algumas tentativas frustradas, desisti. O blog ficou lá, com muitas das pretendidas 365 páginas ainda em branco.

 

Não é que a paixão pelas palavras tenha acabado. Apenas “demos um tempo” na relação. O problema não eram elas, era eu. De vez em quando, batia saudade, mas, teimosa que sou, não dava o braço a torcer. Como vou escrever sobre tudo isso que está acontecendo, eu pensava? Não dá, não sei lidar, melhor esperar a vontade passar.

 

Bem, a vontade não passou. Novos amigos leram velhos textos, e recebi de volta uma energia tão boa que acabou reavivando as chamas da paixão. De verdade, ainda não sei como vou contar as novas histórias, mas sinto que preciso, e tenho certeza de que quero.
Então, cá estou eu mandando um “oi, sumido” para o meu blog. A próxima mensagem vai na linha do “e aí, o que tem feito de bom?”.
 

Vida: episódio 2016

O episódio 2016 dessa série chamada vida está acabando. Um episódio daqueles de tirar o sono, fazer chorar e rir, pular de alegria, arrancar suspiros de emoção, fazer bufar de raiva, deixar preso no sofá, incapazes de acreditar no que nossos olhos estavam vendo. 
E os personagens? Ah, os personagens… alguns pareciam vilões e se revelaram heróis, e outros que começaram encantando, terminaram fazendo chorar. Alguns saíram da história de forma imprevisível, outros chegaram no meio do episódio e, de mansinho, foram conquistando seu espaço. Há, também, aqueles que permaneceram firmes e fortes, apesar de todas as reviravoltas. Laços se desfizeram, outros nasceram e outros se confirmaram.
Teve cenas de romance, com açúcar e pimenta. Teve momentos de suspense, daqueles de fazer cruzar os dedos e torcer para que tudo desse certo. Houve, ainda, cenas dramáticas, com direito a escorregar pela parede chorando como se o mundo estivesse acabando. Momentos de tédio, com roteiro meio repetitivo? Teve, sim senhor. Desfechos inesperados, daqueles melhores que a encomenda? Opa, teve também. Finais (novos começos?) felizes? Sim, obrigada Redator! 
As locações também tiverem papeis importantes. Cenários diferentes para ilustrar a busca por respostas e experiências. Idas e vindas em aeroportos, pores-do-sol com vista para o rio, reencontro com as raízes, jantares regados a vinho, conversas cheias de significado, com horizontes sendo revisados e ampliados, mudanças de corpo e de alma. Cenas tranquilas no núcleo familiar, doces e ternas, outras agitadas com os amigos pelo mundo.
O roteiro do episódio 2017 já está no forno. Alguns enredos foram concluídos, mas vários outros permanecem em aberto, com mistérios a desvendar, reencontros para acontecer, personagens novos para chegar, conquistas para comemorar, romances para viver, desafios para vencer, paz para construir. Protagonistas que somos, temos a liberdade e responsabilidade de dar nossa contribuição para que a história seja um sucesso. Pode pegar a pipoca e o espumante, o espetáculo já vai começar…

 Imagem: reprodução Pinterest

Baseado em fatos reais

Um belo dia, numa dessas “coincidências” da vida, você esbarra em alguém. Uma história dessas que a gente lê nos livros. Encontro casual, cada um segue seu rumo, e um dia, um dia daqueles em que você está brigando com Deus porque as coisas não dão certo, a pessoa reaparece. As redes sociais e seu poder de conexão. Gato escaldado que é, você fica com os dois pés atras, mas o destino parece decidido a dar uma mãozinha. Gostos parecidos, histórias parecidas, conversa fácil, sincronicidade te colocando no lugar certo, na hora certa. Ainda com o pé atras, razão dizendo para segurar a onda, mas o beijo…ah, o beijo! A mágica acontece, o vinho fica na taça, o tempo ganha outro ritmo. Aí você pensa, pronto, era isso, vida que segue. Mas a mágica continua, inclusive parece aumentar. A distância física não é problema quando há proximidade de almas. Trilhas sonoras sem fim. Nesta altura, você já esqueceu que tinha sido escaldado e se joga na água fervente. Sabe aquela história de bom demais para ser verdade? Pois é. Até foi verdade, mas durou pouco. Intenso, mas fugaz. Os objetivos mudaram, alguns sentimentos evoluíram, outros minguaram, paralelas destinadas a não se cruzar. No lugar da música, o silencio. O vinho anestesia em vez de inebriar. Cérebro sabe, mas coração besta ainda insiste. Você sente que ainda não está pronto para deixar ir, então continua tentando, sofrendo, desculpando, concedendo e alimentando expectativas e esperanças. Mas, mesmo que ela seja a ultima a morrer, não é imortal. Um dia, você cansa, desiste, desespera…e deixa de esperar. Entende que a situação não vai mudar, quem tem de mudar é você. E você decide ir. Um pouco à francesa, elegante, um pouco covarde, sem adeus, porque o coração poderia colocar tudo (a razão) a perder, e por sentir que não faria mesmo diferença. E vai. De um fôlego só, muitas lágrimas depois, na esperança (ela, de novo), de que o que os olhos não veem, o coração, um dia, vai deixar de sentir. Afinal, tudo acontece por um motivo – o começo, o meio e o fim. 

Uma nova página 

Fui uma adolescente sonhadora, muito sonhadora. Mergulhava nos livros e deles tirava combustível para alimentar meus sonhos. Já não sou adolescente há um tempinho, e quando olho para trás percebo que, nestes anos todos, a vida tem sido muito generosa comigo. Tantas histórias bonitas vividas, muitos sonhos realizados, e algumas coisas que nem ousei sonhar mas que vi se tornarem realidade. Sim, houve sonhos que não realizei, vários deles. Mas, de novo, ao olhar para trás percebo que tudo o que aconteceu, de bom ou de ruim, faz todo sentido. Estou exatamente onde devia estar, como devia estar, com quem devia estar. Perdas e danos, sorrisos e lágrimas, alegria tão grande que fizeram chorar, decepções tão grandes que fizeram duvidar. Se tivesse de escolher uma palavra para definir minha vida, seria mudança. Muitas, de todas as naturezas. Na maior parte das vezes, não foram planejadas, simplesmente aconteceram…mas não por acaso. Eu coloco o pé, Deus coloca o caminho. Mais um passo chegando…bem-vindo seja! 

Sobre a luta das uvas 

Apaixonada por vinhos que sou, aproveitei o feriado para conhecer uma vinícola que fica praticamente no quintal de casa, no pé da serra. No tour guiado, um passeio pelo lugar e explicações sobre todo o processo de produção, desde as vinhas até a hora do vinho ir para a garrafa.

Durante o passeio no (lindo!) vinhedo, o enólogo comentou sobre a necessidade de um solo pobre para a produção de vinhos de qualidade. Segundo ele, as uvas precisam lutar pela sobrevivência (como os gladiadores da Roma antiga), e esse sofrimento é o que traz as características necessárias para produção de vinho: acidez, corpo etc. Solos ricos produzem uvas mais vistosas, mas vinhos medíocres.

Fiquei com isso na cabeça, e não pude deixar de pensar, mais uma vez, que pessoas e vinhos têm mais semelhanças do que sonha nossa vã filosofia. 

Há dias nos quais ficamos abalados com as idas e vindas da vida, e pensamos que bem que Deus (universo, energia criadora, como queira chamar) podia “dar uma aliviada” e acelerar a chegada dos dias de glória, porque dos dias de luta já estamos cansados. 

Mas é justamente nessa luta (aprendizados, chegadas e partidas, dores e alegrias, lágrimas e sorrisos) que é forjada nossa alma, e a qualidade do nosso vinho. São os momentos difíceis que nos fazem buscar lá no fundo a força que nem sabíamos que tínhamos, e tocar em frente. Raízes que buscam os nutrientes para crescer, resistir às intempéries e viver para realizar o potencial que trazemos em nós. Sem toda essa bagagem, talvez acabássemos sendo apenas um rascunho do que poderíamos, um desperdício sem fim.

Além dessa luta toda, é preciso se entregar ao fluxo da vida e entender que tudo tem um momento de plantar e colher, e que não é possível atropelar a natureza e suas estações. A uva tem um momento exato para ser colhida (nem antes, nem depois) para garantir que o vinho seja perfeito. Assim é na nossa vida: as coisas só vão acontecer no momento certo, quando estivermos prontos para cada experiência. Tudo tem uma razão de ser. 

Pessoas que vivem todos os desafios sem fechar o coração nem perder essa estranha mania de ter fé na vida são fascinantes como aqueles vinhos raros, fruto das uvas guerreiras, com cores intensas, aromas que perfumam o mundo, sabores que ficam na boca e na alma. 

Esperar a hora da colheita (e lutar por isso) é uma prova de paciência, não há dúvida, mas pelo (pouco) que consegui entender da vida até agora, vale (muito) a pena.  😉