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Vulnerabilidade em três atos

Cena 1

Tinha sido convidada para palestrar em um congresso sobre treinamento. Todos os palestrantes que falaram antes de mim usaram microfone. Nunca gostei disso, e estava lá pensando com meus botões se precisaria mesmo usar o bendito. Afinal, a sala nem era tão grande. Ah, mas todo mundo está usando, vai pegar mal se eu não usar. Por fim, decidi perguntar se as pessoas me ouviam sem microfone. Disseram que sim e fiz minha palestra mais tranquila, com foco no conteúdo que tinha para compartilhar em vez de no medo de derrubar o dito cujo. O palestrante que falou depois de mim optou por não usar o microfone também.

Cena 2

Estava passando férias na Itália e decidi visitar Capri. Era um daqueles tours guiados, com indicação de restaurante para o grupo almoçar. Pedi pizza, que veio com massa bem fininha, cobrindo o prato todo, gerando uma certa “briga” com o garfo e a faca. Como eu queria saborear meu almoço, não lutar com ele, decidi cortar a pizza em fatias e comê-las com a mão. Claro, isso depois de muita conversa interna sobre a imagem de selvagem dos trópicos que isso poderia passar aos companheiros gringos de viagem. Enfim, venci a vergonha e me atraquei com minha marguerita. Quando olhei em volta de novo, vi que algumas pessoas tinham feito o mesmo que eu.

Cena 3

Estava jantando com uma amiga querida. Vinho, comida gostosa e muito papo para colocar em dia. Ela começou a abrir o coração daquele jeito intenso e sem reservas que é tão seu. Me falou de suas dores e dúvidas. Sua franqueza me fez sentir confiança, e acabei contando algumas experiências parecidas com aquelas que ela estava vivendo. Contei tudo, sem editar a história, sem omitir os sorrisos nem as lágrimas. Disse como me sentia e o que queria da vida. Ela olhou para mim e disse que nunca imaginou que eu pudesse me sentir daquele jeito, e que era bom saber que ela não era a única.

Moral da história: quando assumimos as nossas vulnerabilidades, damos ao outro o direito de fazer o mesmo, e isso é libertador.

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O cachorro e o pão

Um dia desses, estava indo pra casa depois de passar na padaria e comprar sopa e pão para o jantar. Encontrei um catioro lutando para rasgar um saco de lixo e fui logo pensando: “tadinho, está com fome!”.

Coração comovido, tratei de pegar um pedaço do meu pão e dei pro bichinho…que ignorou solenemente e voltou a lutar com o saco de lixo! 🤦🏼‍♀️🙄😤

Passada a vontade de esfregar o pão na cara dele, algumas importantes reflexões geradas pelo cão que rejeitou o pão:

A) Ele não me pediu nada. Talvez não estivesse com fome, apenas curtindo o lixo, ou quem sabe faz dieta low carb e queria um bife. Ou seja, não tinha obrigação de aceitar o que ofereci.

B) Dei o pão porque era o que eu podia dar. Fiz meu melhor, mas o marmotinha exerceu seu direito canino de esnobar.

Moral da história: a gente só pode dar aquilo que tem, e ninguém tem obrigação de aceitar. Oferecer é nossa opção, recusar é opção do outro. Só sabemos nossas razões para oferecer, talvez nunca saibamos as razões da recusa. E segue o baile.

P.s.: o cachorro da foto é o Bob, um dos meus, que faz dupla com o Marley. ❤️

Se mesmo ele, que me ama muito, às vezes rejeita a comida que ofereço, imagina um serumaninho que me viu uma vez só e não sabe o tanto que eu sou legal, né não? 😏😊

Sobre Budapeste, com amor

Budapeste era a última escala das férias de 2016, depois de Varsóvia e Cracóvia. Quando cheguei lá, me apaixonei perdidamente. Que lugar mais lindo!!! Da janela do quarto, eu podia ver o Parlamento e os barcos passeando pelo rio. Um pouco adiante, estava a Ponte das Correntes, outro cartão postal da cidade. Gostei tanto que voltei para lá já no ano seguinte – este post unifica as duas viagens para “fins didáticos”. 😉

https://www.artotels.com/budapest-hotel-hu-h-1011/hunbuart/hotel

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Passei boa parte do meu tempo lá admirando essa lindeza toda, sem pressa, em restaurantes com mesa na calçada, saboreando uma taça dos deliciosos vinhos húngaros. A outra parte do tempo eu passei andando – e muito – para conhecer a cidade. Ou melhor, as cidades. Explico: de um lado do rio (onde estava o meu hotel), fica Buda, a região medieval. Do outro, fica Pest, onde estão o Parlamento, muitas lojas e parques. Juntando, temos Budapest – para pronunciar corretamente, basta lançar mão do sotaque carioca e puxar bem (bem mesmo) a letra S, com som de X (Budapexxxxxxxxt 😊).

Aliás, o nome da cidade foi a única coisa que consegui aprender a falar em húngaro. Sério, nem bom dia, nem obrigada. Aquela sopa de consoantes era linda de ouvir, mas impossível de pronunciar. Outra encrenca foi a moeda local, o florim. Cada euro compra vários florins, e a conta na moeda local sempre vem na casa dos milhares, mesmo que você tenha comprado apenas uma água e um sorvete. Foram vários “mini ataques do coração” até entender a conversão e parar de achar que teria de vender um rim para pagar as contas. Bem pelo contrário, os preços lá são bem bons. #ficaadica #partiubudapeste #vailogo #táesperandoquê

Assim como em Varsóvia, lá também fiz um free walking tour para reconhecer o terreno. Recomendo muito esse tipo de tour, pois você conhece a cidade, recebe informações muito úteis e ainda faz amigos. #ficaadicadenovo #caminhandoeconversando

Explorar o lado de Buda é mais puxado, porque as atrações ficam todas morro acima. Cansa, mas a vista deslumbrante compensa o esforço. Dada a lindeza saltitante da cidade, fui novamente possuída pela louca das selfies – andava um pouquinho, parava para tomar fôlego, olhava para a vista, ficava ainda mais sem fôlego, tirava uma (ok, várias) fotos e seguia o baile em direção ao Castelo de Buda, que já foi residência de reis húngaros.

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O castelo foi destruído durante a Segunda Guerra. Hoje, reconstruído, é Patrimônio da Humanidade. De lá, se tem as vistas mais deslumbrantes de Pest. É possível visitar o castelo, mas optei apenas por passear do lado de fora e apreciar aquele visual de vários ângulos.

Perto dali, fica a deslumbrante (esse é um post redundante em elogios, sorry) Igreja de São Mathias, gótica e linda (tipo, muito) por dentro e por fora. Os telhados de cerâmica colorida, típicos da Hungria, fazem um contraste lindo com o branco da fachada. Ah, para entrar, tem de pagar. A entrada custa alguns mil dinheiros húngaros, mas bem menos que um rim – vale a pena!

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Duas dicas de restaurantes nos arredores da igreja, caso a fome bata (em mim, ela sempre bate, e sem dó): o Arany Hordó, com mesas na calçada e comida típica (foi lá que tirei a foto da igreja refletida na taça de vinho) e o Jamie’s Italian. Já que tocamos no assunto comida (muito amor), aproveito e conto que o prato típico de lá é o goulash – em sua versão húngara, uma sopa de carne, batata, cenoura e páprica, tempero bastante usado por lá. Bem gostoso, especialmente no frio.

http://www.aranyhordovendeglo.hu/

https://www.jamieoliver.com/italian/hungary/

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Ao lado da igreja, fica o Bastião dos Pescadores, com suas sete torres e uma (outra) vista magnífica (já usei esse adjetivo será?). Um bom lugar para tomar uma taça de vinho e recuperar o fôlego para a volta (para baixo, todo santo ajuda, amém!).

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Uma das descobertas do tour foi sobre a bebida “oficial” de lá, que eu achava que era cerveja. Mas, qual não foi minha surpresa (e felicidade) ao saber que a Hungria, apesar de pequena, tem 22 regiões produtoras de excelentes vinhos. Segundo o guia, ninguém sabe disso porque os húngaros são ótimos para produzir vinhos, mas péssimos de marketing. Eu já tinha ouvido falar do tokaji, um famoso vinho de sobremesa, mas nem sonhava que tomaria vinhos tão bons (e tão baratos) por lá! #wineloversparadise

Descobri uma wine house pertinho do hotel, com mesas na calçada e vista para o rio (oh glória), onde, além de comer super bem, pude experimentar vários vinhos locais. Na última noite da primeira viagem, fiz uma das degustações oferecidas pela casa – o sommelier trouxe um mapa das regiões produtoras e explicou de onde vinha cada vinho degustado, suas características etc. Foram dois brancos, um rosé e quatro tintos maravilhosos. Não tem como ficar melhor, certo? Errado! Acrescente a lua sobre a ponte e você vai querer ficar ali para sempre. Bem, eu quis. 😉

http://www.andante-borpatika.hu/index.php/en/

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Atravessando a Ponte das Correntes – amo pontes, e essa é uma das mais lindas que já vi –, chega-se a Pest, o lado mais agitado da cidade. É lá que fica a Basílica de Santo Estevão, um dos dois edifícios mais altos da cidade (o outro é o Parlamento). Por isso, vale a pena subir na cúpula e apreciar a vista panorâmica (elevador até um ponto, uns bons degraus depois disso).

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Na Europa, é comum encontrar estátuas que, se tocadas, trazem algum tipo de boa sorte. Budapeste também tem a sua – esse simpático senhor que, ao ter a barriga tocada, traz boa sorte em assuntos relacionados a (para tudo!) comida. Quase beijei ele, para garantir, mas me contentei com a tradição. #vaique #nãocreionasbruxas

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O Parlamento fica a uma boa pernada do centro de Pest, mas a caminhada é acompanhada pelas belas vistas de Buda, do outro lado do Danúbio. Antes de chegar lá, discreto, está um importante memorial das vítimas do Holocausto – os Sapatos do Danúbio.  Os 60 sapatos esculpidos em ferro lembram os judeus que eram obrigados a se despir e tirar os sapatos antes de serem fuzilados e terem seus corpos levados pela correnteza. Triste e pungente.

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O Parlamento é impressionante, tanto por dentro quanto por fora. A visita guiada (há vários idiomas disponíveis) tem horários marcados, então ganha-se tempo se comprar o ingresso pela internet. Achei a entrada um pouco cara, mas vale a pena por tratar-se de um dos mais antigos e o segundo maior da Europa – maior do que o da Inglaterra, inclusive.

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Também ficam em Pest dois lugares imperdíveis para comer. Um deles é o tradicional Café New York. Fica bem afastado do centro de Pest (pernas para que te quero), mas sua beleza – e gostosuras – compensam a canseira. Os salões são muito requintados, e você faz suas refeições ao som de lindas (eita, acho que já usei esse adjetivo) músicas tocadas ao piano.

http://www.newyorkcafe.hu/main-page.html?lang=en

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O outro lugar é o pequenino Comme Chez Soi, listado no Trip Advisor como o melhor restaurante de Budapeste. Ao ler os vários elogios à comida (italiana/mediterrânea) e ao atendimento carinhoso que o dono, o Roberto, dava aos clientes, tentei reservar uma mesa na primeira viagem, mas não consegui, mesmo com três meses de antecedência. Da segunda vez, com cinco meses antes de embarcar, garanti a reserva. O lugar é bem pequeno mesmo, mas aconchegante. O Roberto recebe os clientes com muito carinho, incluindo entradinhas e sobremesas como cortesia. Comida maravilhosa, vinho (local, of course!) idem. Um lugar que merece a fama. Algumas pessoas tentam conseguir mesa sem reserva, mas é bem difícil. Então, se for para lá, vale reservar. #ficaadica3 #temqueir #nhamiiiii

http://www.commechezsoi.hu/index2.html

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Por último, mas não menos importante, um programa imperdível – o passeio de barco pelo Danúbio. Na primeira viagem, fiz um de manhã e outro no fim do dia, para ver o pôr-do-sol e as luzes da cidade ascendendo. Na segunda, passeio noturno com jantar harmonizado com vinhos húngaros. Em todas elas, o mesmo encantamento ao ver a linda cidade enquanto o barco desliza pelo rio. Muitos suspiros, muitas fotos, muito amor.

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Budapeste é um lugar para se apreciar a beleza da vida sem pressa, saboreando cada momento. Me apaixonei quando conheci, virou amor quando reencontrei. Se volto de novo? Bom, deixarei a dúvida no ar: sim ou com certeza? 😉

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Fragmentos de Natal

365 páginas em branco

Benção de vó. Abraço apertado de madrinha. Pão de ló com cobertura de suspiro. Conversas em polonês.

Caminhada no mato para encontrar a árvore de Natal. Um pinheirinho de verdade. Bolas verdes e vermelhas. Presépio.

Presentes entregues à luz de velas, antes da chegada da luz elétrica. Boneca para mim, um caminhão para meu irmão.

Tempos difíceis, bolso vazio. Árvore sem enfeites. Sem presentes. Com esperança.

No carro com o pai, vejo a mãe saindo da loja com pacotes de presentes. A ficha cai: Papai Noel tem ajudantes.

Churrasco, maionese e risoto de frango. Panetone. Gasosa de framboesa. Cerveja caseira.

Expectativa. Presentes. Cartões. Promessas.

Novenas. Missa. Orações e cantos. O Natal é a celebração do aniversário de Jesus, um cara que falava de amor e justiça. Noite feliz.

Amigo secreto. Confraternização. Espumante. Um brinde aos amigos.

Família reunida. Primeiro Natal do Vinícius alegrando nosso coração. Meu pai com ele no…

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Auschwitz

Quando decidi ir para a Polônia, reservei um dia da viagem para ir a Auschwitz. Sabia que seria doloroso, mas sempre gostei de história, e a da Segunda Guerra é um dos “capítulos” que mais me interessa, por sua escala e todas as implicações.

Agendei a visita no hotel, de um dia para o outro. A viagem a Oświęcim – nome polonês da cidade que os nazistas chamaram de Auschwitz – leva pouco mais de uma hora. Antes de entrar, a guia explica que não é possível entrar com bolsas grandes/mochilas (lá não tem guarda volumes), que fotos são permitidas em quase todo o complexo, com algumas exceções que ela nos sinalizaria, e que, uma vez que estávamos entrando em um cemitério onde tantas vidas se perderam, silêncio e respeito eram necessários.

A primeira impressão que tive ao atravessar o famoso portão com a inscrição “o trabalho liberta” foi de choque – o dia estava lindo, com céu azul e muito sol, os pássaros cantavam, a brisa balançava as folhas das árvores. Tudo tão calmo, agradável. Muito difícil acreditar que aquele lugar tinha sido palco de um dos maiores horrores da humanidade. Fiz uma oração pelas almas que ali tinha sofrido e me concentrei nas informações da guia.

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A visita começou em um dos três campos do complexo, Auschwitz I. Esse foi o primeiro a ser construído, e era o centro administrativo que comandava os demais. Ali, a maior parte dos prisioneiros eram criminosos de guerra (alemães e russos) e poloneses (dissidentes, intelectuais, membros da resistência). No início, havia poucos judeus, àquela altura vivendo (sobrevivendo, na verdade) nos guetos de suas cidades. A deportação e extermínio em massa viram depois, na chamada “Solução Final”.

Ali, os presos recebiam um “número de série”, tatuado no braço. Os pertences eram confiscados, cabelos raspados, uniformes impróprios para o clima da região substituíam as roupas. Em um dos galpões, é possível ver fotos de alguns prisioneiros. A dor e o desespero daquelas pessoas ainda ecoam por lá.

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Tratados como animais, os prisioneiros tinham poucas horas de sono (empilhados em beliches que tinham de ser divididos com várias pessoas), eram submetidos a trabalhos forçados, não tinham condições de higiene e recebiam pouco alimento – pão bolorento, salsicha feita de carne de cavalo, sopa feita de ervas daninhas. A dieta no campo não passava de 700 calorias, muito abaixo do mínimo necessário para um adulto. Lembrei das tantas vezes que falei “estou morrendo de fome” sem ter a menor ideia (graças a Deus) do que isso significa. ☹

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Os nazistas escolhiam alguns prisioneiros – chamados de kapos – para vigiar os demais. Alguns eram extremamente cruéis, outros tratavam os prisioneiros com um mínimo de humanidade. Nos julgamentos que se seguiram à guerra, poucos foram condenados, porque estariam apenas fazendo o que era necessário para sobreviverem.

O Bloco 11 era o mais temido no campo – uma espécie de inferno dentro do inferno, de onde não se saia com vida. Para lá eram enviados os prisioneiros que incorressem em alguma falta, que podia ser uma tentativa de fuga ou, simplesmente, um olhar que irritasse os nazistas. As formas de tortura variavam: alguns presos eram deixados nas celas da fome, para morrer de inanição. Outros ficavam confinados em celas minúsculas, em pé, até que morressem de exaustão. Havia, ainda, celas escuras e sem ventilação nas quais a pessoas morriam sufocadas. Foi nesse bloco que os nazistas fizeram os primeiros testes com o gás Zyklon-B, que viria a ser usado para extermínio em massa nas câmaras de gás.

Na saída do Bloco 11, a guia nos contou a história de Maximiliano Maria Kolbe, um padre polonês que morreu em uma das celas da fome. Ele se ofereceu para morrer no lugar de outro preso, escolhido aleatoriamente pelos guardas para morrer como vingança pela fuga de outros presos. Ao ouvir o homem chorando de desespero porque nunca mais veria sua família, o padre pediu para trocar de lugar com ele. Surpreendentemente, os guardas atenderam ao pedido. Ele sobreviveu por duas semanas sem comida nem água, até que foi morto pelos soldados. Há flores e uma vela marcando na cela onde ele – hoje um santo, canonizado pelo Papa João Paulo II – morreu. O homem que Kolbe salvou (Franciszek Gajowniczek) sobreviveu à guerra e conseguiu reencontrar sua esposa. Os filhos, no entanto, morreram durante bombardeios soviéticos antes da libertação da Polônia.

No meio de tantas histórias de sofrimento, foi essa história de amor que me fez chorar. Kolbe foi um dos tantos prisioneiros que, mesmo em meio ao mais absoluto terror, conseguiram preservar sua condição humana e, ainda, ajudar outras pessoas. Como escreveu Viktor Frankl (que foi prisioneiro de Auschwitz) no livro Em Busca de Sentido, ele foi uma das provas de que, no campo de concentração se podia privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas.” Se eu seria capaz de me manter humana em um cenário daqueles? Não sei, não sei mesmo.

A guia nos conduziu por vários blocos, nos quais é possível ver alguns dos pertences que os prisioneiros traziam consigo quando chegavam ao campo – mantos de oração judeu (talits), sapatos, malas, utensílios de cozinha. Os nazistas confiscavam tudo na chegada e enviavam para uma área conhecida como Canadá (porque o país era considerado uma terra próspera), onde os bens eram separados e enviados para a Alemanha.

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São dois os lugares que não podem ser fotografados – aqueles que provocam os maiores dos vários nós que se formam no estômago durante a manhã: a sala onde estão os cabelos retirados dos mortos depois da câmara de gás (e roupas feitas com isso) e o forno de cremação.

Ao final da visita, fizemos uma pausa rápida (há uma lanchonete e algumas máquinas com bebidas e snacks) e seguimos (de carro) para Auschwitz II, mais conhecida como Birkenau – são daquele campo algumas das imagens mais fortes do Holocausto, com os trens chegando cheios de judeus que desconheciam o horror que os aguardava.

Ao contrário do primeiro campo, totalmente preservado, Birkenau foi quase que totalmente destruída pelos Aliados ao fim da guerra. Restaram alguns símbolos, homenagens e o campo aberto, a perder de vista. Na época da guerra, as chaminés dos crematórios trabalhavam dia e noite. Quase é possível sentir o cheiro de cinzas no ar. 

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Havia, ainda, um terceiro campo – que englobava outros 45 subcampos – próximo dali que foi totalmente destruído. A escalado do horror em Auschwitz era exponencial.

Ainda estão em Birkenau os trilhos que levavam os trens para a área de seleção dos prisioneiros. Depois de viajaram empilhados nos vagões como animais, os prisioneiros chegavam na plataforma sem fazer ideia do que os aguardava. Há fotos dos grupos recém-chegados nas quais se podem ver crianças sorrindo, inocentes, sem imaginar que estavam para serem separadas dos seus pais para sempre. Idosos, crianças e doentes eram enviados diretamente para as câmaras de gás. Os prisioneiros considerados aptos para o trabalho iam para barracões ainda mais precários do que os do primeiro campo.

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Ao chegar nas câmaras de gás, os prisioneiros eram informados de que tomariam um banho a antes de serem instalados no campo. Despidos das roupas e da dignidade, entravam nas salas com chuveiros falsos, de onde saia gás venenoso em vez de água. Ao perceber o que estava acontecendo, o desespero tomava conta…os gritos podiam ser ouvidos do lado de fora, e o chão ficava marcado pelos arranhões na tentativa de escapar do inferno.

Esse método (gás + cremação) foi a forma que os nazistas encontraram de deixar o processo de extermínio de judeus mais rápido e eficiente. No início, os guardas executavam os presos com tiros, o que demorava e, ainda, tinha um efeito negativo no moral dos guardas, que se sentiam deprimidos e exaustos pelo esforço. Como requinte de crueldade, os nazistas designavam um grupo de judeus – chamados de sonderkommando – para retirar os mortos da câmara, arrancar o ouro que porventura tivessem nos dentes e, depois, levá-los aos fornos de cremação. Eles ficavam isolados para que os outros presos não soubessem o que os esperava. De tempos em tempos, os sonderkommando eram eliminados nas câmaras e de gás e substituídos por outros.

São muitas as histórias de horror vividas pelos prisioneiros nos campos. Os experimentos médicos do Dr. Mengele, conhecido como o Anjo da Morte, que tinha predileção por anões e gêmeos. A crueldade sem fim da supervisora do campo feminino, Maria Mandel, conhecida como A Besta – foi dela a ideia sádica de criar uma orquestra que era obrigada a tocar músicas alegres enquanto os prisioneiros saiam para os trabalhos forçados. Há um filme no Netflix chamado Amarga Sinfonia de Auschwitz (Playing for Time) que conta a história da orquestra. É antigo, mas traz um retrato bem verdadeiro do que era a vida no campo, caso alguém queira saber mais sobre o tema.

O inferno durou até o final da guerra. Antes do fim, muitos foram mortos ou evacuados para outros campos em uma tentativa de eliminar evidências dos crimes ali cometidos. Quando o Exército Vermelho liberou o campo, no dia 27 de janeiro de 1945, encontrou 7.500 prisioneiros que mais pareciam esqueletos do que gente, e as cinzas dos mortos sendo espalhadas pelo vento.

É impossível determinar ao certo o número de mortos em todo o complexo de Auschwitz. O número de maior consenso é de 1.5 milhão, sendo que 1.1 milhão eram judeus. Também lá morreram outros povos e grupos considerados inferiores pelos nazistas – dissidentes políticos, rebeldes, homossexuais, ciganos etc.  Nunca vou conseguir entender tanto ódio pelos diferentes – de cor, de raça, de pensamento.

Ao fim da visita, a guia comentou que, no fim da guerra, foi cogitada a destruição de todos os campos de concentração na tentativa de apagar o horror daquele período. Depois, decidiu-se que uma parte seria preservada e aberta para visitação. A intenção era contar ao mundo tudo o que aconteceu ali na esperança que – ao entender e reverenciar o passado – pudéssemos evitar que os erros fossem repetidos no futuro. Olhando o mundo de hoje, disse ela, acho que falhamos.

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Cracóvia, sua linda!

Depois de dias intensos em Varsóvia, fui, de trem, para a próxima parada da viagem, Cracóvia. Amo viajar de trem, a propósito: é simples, confortável, eficiente e, de quebra, dá para curtir as paisagens do caminho. O que eu vi do interior da Polônia – pequenas vilas, pessoas trabalhando nas plantações, muito verde – me fez lembrar muito da colônia de poloneses onde nasci e fui criada, lá em São José dos Pinhais.

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Cheguei na estação de Cracóvia com chuva, mas quando cheguei ao hotel o sol já tinha aparecido. Larguei minhas coisas e fui logo em busca da Stare Miasto (Cidade Antiga) de lá. Foi chegar e me apaixonar – que lugar mais lindo e cheio de vida! Em Varsóvia, tirei poucas fotos. Ali, a louca das fotos (e selfies) voltou com força total para registrar os vários tons de lindeza que eu estava vendo.

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Cracóvia é considerada a capital cultural da Polônia. Embora tenha sido poupada pelos bombardeios, a cidade também sofreu os horrores da Segunda Guerra, sobretudo a comunidade judaica, que representava quase um quarto da população. Muitos foram enviados para campos de concentração, e outros tantos foram confinados pelos nazistas em um gueto na cidade. Ali fica, ainda, a fábrica onde Oskar Schindler salvou a vida de muitos judeus, conforme contato no belo (e triste, muito triste) filme A Lista de Schindler. Depois do impacto de Auschwitz, resolvi não visitar a fábrica, hoje um museu.

No centro da Cidade Antiga está a (linda, muito linda, lindíssima!!!) Principal Praça do Mercado (Rynek Główny). Dali, saem as principais ruas e se pode acessar o (lindo, deuso, deslumbrante) Castelo Wawel, o Barbacã e o Portal de Floriano (tenho um tio com esse nome, alô alô raízes!), entre outras atrações da cidade.

No dia em que cheguei, uma grande estrutura estava sendo montada na praça, para um show ou algo do gênero. Tentei descobrir o que era, mas não tive muito sucesso. Algumas pessoas para quem perguntei falavam pouco inglês, e eu falo nada de polonês (#fail). Já a garçonete do restaurante onde almocei (tomando uma bela pivo local) não sabia e não queria saber. Segundo ela, aquilo era “apenas mais um dia normal em Cracóvia”. No outro dia, quando encontrei um grupo de capoeiristas em plena praça, cantando e jogando como se em Salvador estivessem, nem estranhei muito. Varsóvia é uma festa!

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Durante os dias que fiquei lá, curti bastante a praça e conheci todo o complexo do Castelo. Também fui visitar Auschwitz, que fica próximo dali, mas isso é assunto para outro post.

Os restaurantes da praça são perfeitos para apreciar o vai e vem das pessoas. Sempre tem artistas de rua por lá, e também uma galeria perfeita para comprar artesanato polaco – a louca das lembrancinhas baixou forte lá, e a mala ficou um tantinho mais pesada.

Falando das comilanças que são tão minhas, provei boas carnes (acompanhadas da dupla dinâmica batata e repolho), pierogi e sanduíche (gigante) de kiełbasa (salame) e broa caseira, e até pizza para variar um pouco. Contrariando todas as probabilidades, encontrei vinho polonês, sim senhor. Era gostoso, mas meus conterrâneos mandam bem mesmo é na vodka e cerveja – essa última uma pedida perfeita com o calorão que fez por lá.

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Reservei uma manhã inteira para visitar o complexo do Castelo Wawel, localizado em uma colina de mesmo nome. Os ingressos para as várias atrações são vendidos separadamente, mas, dependendo do que você quiser ver, os horários têm de “combinar”, porque a visita aos Aposentos Reais só é feita com guia (inglês e polonês são os idiomas disponíveis). Já que estava lá, acabei vendo tudo: a magnifica catedral onde estão enterrados reis polacos, os Apartamentos Reais e os Salões de Estado. Também visitei a sala na qual está exposta a obra Dama com Arminho, de Leonardo Da Vinci.

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Uma atração “um tanto peculiar” do castelo é Gruta do Dragão. Varsóvia tem sua sereia, e Cracóvia tem seu dragão. Cada cidade com sua lenda, né mesmo? O dragão de Wawel vivia em uma gruta às margens do rio Vístula e estava aterrorizando os moradores do reino do Príncipe Krak (daí vem o nome da cidade). Por aterrorizando, entenda-se devorando animais e moradores. Depois de muitos cavaleiros perderem suas vidas tentando matar o monstro, um pobre sapateiro teve a ideia de “rechear” um carneiro com enxofre e alcatrão. O dragão comeu a guloseima e, ardendo de sede, tomou tanta água que acabou explodindo. A estátua do Wawel, cuspindo fogo e tudo (what else?), faz a alegria das crianças e adultos ao fim do passeio.

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Os złotys (moeda polonesa) investidos no passeio valeram muito a pena. Tudo lindo, e repleto de história. Almocei por lá, em um café com vista para o Castelo, me sentindo a própria princesa polonesa. Dziękuję, Polônia! Que sorte a minha ter seu sangue correndo nas minhas veias.

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Em Cracóvia, consegui montar o quebra-cabeça da alma polaca. Esse povo é trabalhador e guerreiro como Varsóvia, mas também é alegre e festeiro como Cracóvia. Sabe aquela história de festa de polaco que dura três dias? Aposto que surgiu aqui. 😉

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Varsóvia, a corajosa

Mesmo sendo descendente de poloneses, nunca tinha pensado seriamente em ir para lá. Naquelas férias, tinha pensando em ir para a Provence, mas, como estava caro, num impulso, mudei o roteiro e resolvi conhecer a terra de onde veio a família do meu pai. Decisão impulsiva e quase sem nenhum planejamento, algo impensável para a minha pessoa em um passado nada distante, um sinal das transformações pelas quais a polaca que escreve essas mal digitadas linhas estava passando.

Pela primeira vez na vida de viajante, meu voo de conexão – que deveria sair da Alemanha às 14h – foi cancelado, o que me fez chegar em Varsóvia, a capital do país, tarde da noite. Meu hotel ficava em frente ao Palácio da Cultura e Ciência, um dos pontos turísticos de lá, o que me fez ir dormir com uma sensação de “puxa vida, a polaca está mesmo na Polônia!”. No café da manhã, uma senhorinha desandou a falar comigo em polonês, crente que eu entenderia. Eita, ali eu não tinha cara de gringa! 😊

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Me sentido mais polaca do que nunca, fui caminhando até a Cidade Velha (Stare Miasto). Cheguei lá quando um grupo de Free Walking Tour (não há preço fixo, você paga no final de acordo com o que achou do passeio) estava saindo da praça. Resolvi me juntar ao grupo e foi fantástico! A guia era ótima, e enquanto andávamos pela região da Cidade Antiga, fui tomando conhecimento da história daquela cidade tão sofrida e tão corajosa. No grupo, havia um jovem americano que tinha largado tudo para mochilar pelo mundo, a primeira das amizades que eu viria a fazer na viagem.

Durante o tour, fiquei sabendo que a Varsóvia foi quase que totalmente destruída na Segunda Guerra Mundial, e que a Cidade Velha que estávamos vendo, tão linda com seus prédios “antigos”, era na verdade uma réplica reconstruída graças ao apoio da população, que doou tempo e dinheiro para ter ao menos aquele “pedaço” da cidade tal qual era antes da destruição causada pelos nazistas. Segundo a guia, um exemplo de crownfunding bem antes que o termo se tornasse conhecido. A arquitetura da cidade é uma espécie de colcha de retalhos, como vários estilos misturados. Ainda hoje, os prédios cinza construídos pelos russos são uma feia lembrança daquela época. Tirando o centro antigo, Varsóvia não pode ser definida como uma cidade bonita, como Cracóvia, tida como uma das mais belas da Europa. Mas, como disse a guia – não sem uma pitada de ironia (bairrismo, quem nunca?) – a “outra” cidade não foi quase totalmente destruída e se reergueu, literalmente, das cinzas.

No Castelo Real, há uma torre com um relógio. Ali, todos os dias um soldado toca clarinete na torre do relógio, na hora em que a torre foi bombardeada durante a guerra (não lembro o horário exato e não achei em lugar nenhum, mas era depois das 11h). Lembranças da guerra – cicatrizes de feridas tão profundas – estão espalhadas pela cidade toda, para lembrar e honrar os soldados e civis que morreram em Varsóvia durante a guerra. Em 1939, a cidade tinha cerca de 1.3 milhão de habitantes. Ao final da guerra, em 1945, restavam pouco mais de 400 mil pessoas.

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A guia, excelente, contou várias histórias interessantes sobre cidade. Fiquei sabendo que a sereia Sawa – cuja estátua fica na linda Praça do Mercado – foi “pescada” pelo jovem Wars no rio Vístula. Eles se apaixonaram e fundaram a cidade, “batizada” com uma junção dos seus nomes: em polonês, Warsawa. Sim, os poloneses também sabem ser românticos. 😉

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Também soube que o coração do compositor Chopin está enterrado na Igreja da Santa Cruz – com medo de ser enterrado vivo, ele teria pedido para que seu coração fosse retirado do corpo antes do sepultamento. Meio excêntrico, mas assim são os artistas, né não? Há outras referências a este famoso polonês pela cidade. No verão, há concertos gratuitos no Parque Lazienski, onde há uma estátua do músico.

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Continuamos a andar e chegamos na casa onde viveu Marie Skłodowska Curie, uma cientista polonesa ganhadora de dois prêmios Nobel, um deles por ter descoberto dois elementos químicos, o rádio e o polônio, esse último batizado em homenagem à sua terra natal. Casada com um francês, mudou-se para Paris, onde foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne. Um mulherão da porr@ essa polaca, hein?!

O tour da manhã terminou em um bar, onde a guia nos explicou que, ao contrário do que se pode imaginar, a bebida oficial do país não é a cerveja (pivo), e sim a vodka. Segundo ela, os poloneses bebem vodka quando estão felizes, para comemorar, e quando estão tristes, para afogar as mágoas. Então, basicamente, bebem vodka o tempo todo (bom, é fato que polacos são mesmo bons de copo). Ela contou, ainda, que o segredo para não ter uma ressaca dos infernos era intercalar shots de vodka com aperitivos bem gordurosos. Essa história toda só podia terminar de um jeito, né? Isso mesmo, um brinde com vodka polonesa, acompanhado de um aperitivo bem típico, pão caseiro com banha de porco e picles (lembra a história de ser gorduroso…então!). Resolvi não fazer desfeita e tomei o primeiro shot de vodka da vida. Na zdrowie!

Depois do almoço, haveria outro tour específico sobre a Segunda Guerra, que resolvi fazer para aprofundar algumas informações. O almoço foi num milk bar descoberto pelo Matt, meu amigo mochileiro, expert em encontrar lugares para comer bem e barato. Esses “bares de leite” são uma espécie de fast food polonês, frequentados, principalmente, por trabalhadores. O nome se deve ao fato de que, no período pós-guerra, a carne era racionada e a alimentação era composta, basicamente, por laticínios e vegetais. O milk bar em que almoçamos era diferenciado porque tinha um cardápio em inglês, uma raridade neste tipo de estabelecimento. Você paga no caixa e pega o prato no balcão. As mesas e cadeiras de fórmica, o altar com flores e as senhorinhas que serviam a refeição me fizeram lembrar muito da casa dos meus avós paternos, Vitória e Zefredo. Aquela sopa de legumes teve gosto de saudade.

O tour da tarde foi mais pesado, como era de se esperar, por conta dos horrores vividos ali durante a Segunda Guerra. Passamos por prédios onde batalhas importantes aconteceram, lugares onde civis foram executados (para pressionar a resistência, porque tinham irritados os nazistas ou, simplesmente, porque sim), monumentos em homenagem aos soldados, aos revolucionários que participaram do Levante de Varsóvia e até um para homenagear as crianças que apoiaram o levante e, por isso, perderam suas vidas. ☹

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Fomos até onde ficava o maior gueto judeu da Europa, que chegou a ter 380.000 pessoas – 30% da população da cidade, ocupando 2,4% do seu território. Essa área, hoje, é mais alta que o restante da cidade, porque foi reconstruía sobre a pilha de ruínas que restou depois que os nazistas destruíram o gueto. Lá, a guia lembrou do “Anjo do Gueto de Varsóvia”, Irena Sendler (Sendlerowa, nascida Krzyżanowska), que arriscou a vida para tirar mais de 2.500 crianças do gueto.

O dia tinha sido cheio de informações e reflexões. Resolvi terminar de um jeito leve, voltando até a Praça do Mercado, onde escolhi um restaurante com mesa na calçada (e vista para a estátua da sereia #muitoamor) e pedi meus dois pratos típicos favoritos, pierogi (pastel cozido, recheado com ricota) e golabki (charutos de repolho, recheado com arroz e carne). Estava tudo bem gostoso, mas os pratos feitos pela minha mãe e madrinha são beeeem melhores. Sabe como é, o tal tempero chamado amor.

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No segundo dia, fui conhecer o Museu do Levante de Varsóvia, que conta a história da luta armada do Exército Revolucionário para tentar libertar a cidade dos nazistas. A ofensiva começou quando os russos se aproximavam da cidade, que contava com seu apoio. No entanto, o Exército Vermelho acampou às margens do rio Vístula, e lá ficou esperando que os nazistas destruíssem os revolucionários, o que tornaria mais fácil para Stalin conseguir seu objetivo de expandir o comunismo na Europa pós-guerra. O Levante, que começou no dia 1º de agosto de 1944, durou 63 dias, até a rendição em 2 de outubro do mesmo ano. Neste tempo, estima-se que 16.000 mil integrantes da resistência morreram, juntamente com cerca de 60.000 civis, a maioria massacrada pelos nazistas como forma de pressionar os revolucionários. Após a rendição, Hitler ordenou que a cidade fosse evacuada, e sistematicamente destruída, quarteirão a quarteirão.

O museu – multimídia – é um dos mais impressionantes que eu já vi. O impacto foi tão forte que só depois que saí de lá percebi que não havia tirado uma foto sequer. O primeiro sentido mobilizado, logo na chegada, é a audição – gravações de aviões sobrevoando a cidade, bombas caindo e até um coração pulsando dão a ideia do horror vivido pela população naqueles dias. Há fotos, objetos e áudios obre a luta, além de réplica dos túneis de esgoto usados como esconderijo pelos membros da resistência. É possível, ainda, assistir a um vídeo que simula um voo sobre a cidade no fim da guerra – literalmente, um mar de escombros. Há vários testemunhos dos sacrifícios feitos pela população. Em um determinado momento, ouvi orações e cantos vindos de uma imagem de santo – as mesmas orações e cantos que eu tinha ouvido em casa, durante o enterro dos meus avós poloneses. Nessa hora, chorei. Entendi de onde vinham todo o orgulho e determinação dos poloneses que, mesmo depois de sofrer horrores inimagináveis, foram capazes de reconstruir sua cidade e recomeçar a vida. Assim são os poloneses da minha família, da minha comunidade: fortes, sem medo de trabalho, honestos, determinados e muito, muito orgulhosos de ser quem são.

Do museu, fui conhecer o parque Lazienki que, com seus lagos e o lindo palácio, foi um oásis perfeito para aliviar a alma depois das emoções da manhã.

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Antes de deixar Varsóvia, decidi aceitar a recomendação da guia e assistir ao jogo da Polônia contra a Alemanha, pela Eurocopa. O tour do dia anterior terminou em uma muralha com vista para o estádio de futebol de Varsóvia, onde, há alguns anos, a seleção da Polônia venceu, pela única vez na história, a seleção da Alemanha. Ao encerrar a história, a guia disse “eles não podiam ganhar de nós. Não aqui.” Ela disse que a cidade estaria muito animada e que valia a pena assistir ao jogo num dos bares do centro.

De fato, a cidade estava muito animada naquela noite de junho de 2016. O clima era de festa. Ruas cheias, caras pintadas, camisas da seleção, bandeiras do país – tudo pronto para torcer. Foi difícil achar um lugar, mas por fim achamos um bar com boa comida, bebida e vista para a TV. Nas mesas ao lado, poloneses quase enfartando durante todo o jogo. A Polônia jogou bem, e por vezes esteve perto de vencer o jogo. Uma das polonesas que assistia ao jogo no mesmo bar (e tinha cantado o hino em pé, com a mão no coração) puxou papo e contou a mesma história do jogo que a Polônia, jogando em Varsóvia, havia ganho da Alemanha. De novo, aquela frase: “eles não podiam ganhar de nós. Não aqui.”.

Torci como se polonesa fosse – como polonesa que, por descendência, sou! O jogo acabou em 0X0, mas o empate foi comemorado como vitória em final de Copa. Ao caminhar de volta ao hotel, andando pelas ruas cheias de poloneses celebrando com orgulho, entendi que algumas cicatrizes, por mais antigas que sejam,  nunca vão parar de doer.

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