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Sem palavras 

Sempre fui apaixonada pelas palavras. Crush dos brabos, daqueles que a gente jura que vai ser para sempre. Me apaixonei tanto pelas palavras dos outros — os livros — que ousei dar voz às minhas por meio das mal traçadas linhas deste blog.

Escrevi loucamente por um bom tempo. Era uma terapia, um hobby, um exercício — tudo ao mesmo tempo agora. Tinha tanto para contar, tanto para dividir. Gostava de pensar nos meus textos como uma espécie de crônica da vida real: eu escrevia sobre o que eu via, vivia, sentia, sonhava. Um amigo definia meu estilo como prosa poética, e de alguma maneira me reconhecia nessa definição. Parecia um bom jeito de contar as minhas histórias: direto e reto, mas com uma pitada de delicadeza.
Escrever já era um prazer em si, potencializado pela troca com os “leitores”. Me emocionava quando alguém me contava que seguia o blog, que compartilhava de algum sentimento, que tinha rido de alguma história. Pode soar arrogante — e talvez seja mesmo —, mas me sentia um pouco como os autores dos livros que eu tanto amava. Era bom saber que as minhas palavras encontravam abrigo e ressonância em outros corações.

De repente, a vontade — ou seria a coragem? — de escrever sumiu. Fiquei sem palavras. O barulho interno era tão alto que não conseguia colocar aqueles sentimentos no papel. Não conseguia passar a limpo. Depois de algumas tentativas frustradas, desisti. O blog ficou lá, com muitas das pretendidas 365 páginas ainda em branco.

 

Não é que a paixão pelas palavras tenha acabado. Apenas “demos um tempo” na relação. O problema não eram elas, era eu. De vez em quando, batia saudade, mas, teimosa que sou, não dava o braço a torcer. Como vou escrever sobre tudo isso que está acontecendo, eu pensava? Não dá, não sei lidar, melhor esperar a vontade passar.

 

Bem, a vontade não passou. Novos amigos leram velhos textos, e recebi de volta uma energia tão boa que acabou reavivando as chamas da paixão. De verdade, ainda não sei como vou contar as novas histórias, mas sinto que preciso, e tenho certeza de que quero.
Então, cá estou eu mandando um “oi, sumido” para o meu blog. A próxima mensagem vai na linha do “e aí, o que tem feito de bom?”.
 

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Vida: episódio 2016

O episódio 2016 dessa série chamada vida está acabando. Um episódio daqueles de tirar o sono, fazer chorar e rir, pular de alegria, arrancar suspiros de emoção, fazer bufar de raiva, deixar preso no sofá, incapazes de acreditar no que nossos olhos estavam vendo. 
E os personagens? Ah, os personagens… alguns pareciam vilões e se revelaram heróis, e outros que começaram encantando, terminaram fazendo chorar. Alguns saíram da história de forma imprevisível, outros chegaram no meio do episódio e, de mansinho, foram conquistando seu espaço. Há, também, aqueles que permaneceram firmes e fortes, apesar de todas as reviravoltas. Laços se desfizeram, outros nasceram e outros se confirmaram.
Teve cenas de romance, com açúcar e pimenta. Teve momentos de suspense, daqueles de fazer cruzar os dedos e torcer para que tudo desse certo. Houve, ainda, cenas dramáticas, com direito a escorregar pela parede chorando como se o mundo estivesse acabando. Momentos de tédio, com roteiro meio repetitivo? Teve, sim senhor. Desfechos inesperados, daqueles melhores que a encomenda? Opa, teve também. Finais (novos começos?) felizes? Sim, obrigada Redator! 
As locações também tiverem papeis importantes. Cenários diferentes para ilustrar a busca por respostas e experiências. Idas e vindas em aeroportos, pores-do-sol com vista para o rio, reencontro com as raízes, jantares regados a vinho, conversas cheias de significado, com horizontes sendo revisados e ampliados, mudanças de corpo e de alma. Cenas tranquilas no núcleo familiar, doces e ternas, outras agitadas com os amigos pelo mundo.
O roteiro do episódio 2017 já está no forno. Alguns enredos foram concluídos, mas vários outros permanecem em aberto, com mistérios a desvendar, reencontros para acontecer, personagens novos para chegar, conquistas para comemorar, romances para viver, desafios para vencer, paz para construir. Protagonistas que somos, temos a liberdade e responsabilidade de dar nossa contribuição para que a história seja um sucesso. Pode pegar a pipoca e o espumante, o espetáculo já vai começar…

 Imagem: reprodução Pinterest

Baseado em fatos reais

Um belo dia, numa dessas “coincidências” da vida, você esbarra em alguém. Uma história dessas que a gente lê nos livros. Encontro casual, cada um segue seu rumo, e um dia, um dia daqueles em que você está brigando com Deus porque as coisas não dão certo, a pessoa reaparece. As redes sociais e seu poder de conexão. Gato escaldado que é, você fica com os dois pés atras, mas o destino parece decidido a dar uma mãozinha. Gostos parecidos, histórias parecidas, conversa fácil, sincronicidade te colocando no lugar certo, na hora certa. Ainda com o pé atras, razão dizendo para segurar a onda, mas o beijo…ah, o beijo! A mágica acontece, o vinho fica na taça, o tempo ganha outro ritmo. Aí você pensa, pronto, era isso, vida que segue. Mas a mágica continua, inclusive parece aumentar. A distância física não é problema quando há proximidade de almas. Trilhas sonoras sem fim. Nesta altura, você já esqueceu que tinha sido escaldado e se joga na água fervente. Sabe aquela história de bom demais para ser verdade? Pois é. Até foi verdade, mas durou pouco. Intenso, mas fugaz. Os objetivos mudaram, alguns sentimentos evoluíram, outros minguaram, paralelas destinadas a não se cruzar. No lugar da música, o silencio. O vinho anestesia em vez de inebriar. Cérebro sabe, mas coração besta ainda insiste. Você sente que ainda não está pronto para deixar ir, então continua tentando, sofrendo, desculpando, concedendo e alimentando expectativas e esperanças. Mas, mesmo que ela seja a ultima a morrer, não é imortal. Um dia, você cansa, desiste, desespera…e deixa de esperar. Entende que a situação não vai mudar, quem tem de mudar é você. E você decide ir. Um pouco à francesa, elegante, um pouco covarde, sem adeus, porque o coração poderia colocar tudo (a razão) a perder, e por sentir que não faria mesmo diferença. E vai. De um fôlego só, muitas lágrimas depois, na esperança (ela, de novo), de que o que os olhos não veem, o coração, um dia, vai deixar de sentir. Afinal, tudo acontece por um motivo – o começo, o meio e o fim. 

Uma nova página 

Fui uma adolescente sonhadora, muito sonhadora. Mergulhava nos livros e deles tirava combustível para alimentar meus sonhos. Já não sou adolescente há um tempinho, e quando olho para trás percebo que, nestes anos todos, a vida tem sido muito generosa comigo. Tantas histórias bonitas vividas, muitos sonhos realizados, e algumas coisas que nem ousei sonhar mas que vi se tornarem realidade. Sim, houve sonhos que não realizei, vários deles. Mas, de novo, ao olhar para trás percebo que tudo o que aconteceu, de bom ou de ruim, faz todo sentido. Estou exatamente onde devia estar, como devia estar, com quem devia estar. Perdas e danos, sorrisos e lágrimas, alegria tão grande que fizeram chorar, decepções tão grandes que fizeram duvidar. Se tivesse de escolher uma palavra para definir minha vida, seria mudança. Muitas, de todas as naturezas. Na maior parte das vezes, não foram planejadas, simplesmente aconteceram…mas não por acaso. Eu coloco o pé, Deus coloca o caminho. Mais um passo chegando…bem-vindo seja! 

Sobre a luta das uvas 

Apaixonada por vinhos que sou, aproveitei o feriado para conhecer uma vinícola que fica praticamente no quintal de casa, no pé da serra. No tour guiado, um passeio pelo lugar e explicações sobre todo o processo de produção, desde as vinhas até a hora do vinho ir para a garrafa.

Durante o passeio no (lindo!) vinhedo, o enólogo comentou sobre a necessidade de um solo pobre para a produção de vinhos de qualidade. Segundo ele, as uvas precisam lutar pela sobrevivência (como os gladiadores da Roma antiga), e esse sofrimento é o que traz as características necessárias para produção de vinho: acidez, corpo etc. Solos ricos produzem uvas mais vistosas, mas vinhos medíocres.

Fiquei com isso na cabeça, e não pude deixar de pensar, mais uma vez, que pessoas e vinhos têm mais semelhanças do que sonha nossa vã filosofia. 

Há dias nos quais ficamos abalados com as idas e vindas da vida, e pensamos que bem que Deus (universo, energia criadora, como queira chamar) podia “dar uma aliviada” e acelerar a chegada dos dias de glória, porque dos dias de luta já estamos cansados. 

Mas é justamente nessa luta (aprendizados, chegadas e partidas, dores e alegrias, lágrimas e sorrisos) que é forjada nossa alma, e a qualidade do nosso vinho. São os momentos difíceis que nos fazem buscar lá no fundo a força que nem sabíamos que tínhamos, e tocar em frente. Raízes que buscam os nutrientes para crescer, resistir às intempéries e viver para realizar o potencial que trazemos em nós. Sem toda essa bagagem, talvez acabássemos sendo apenas um rascunho do que poderíamos, um desperdício sem fim.

Além dessa luta toda, é preciso se entregar ao fluxo da vida e entender que tudo tem um momento de plantar e colher, e que não é possível atropelar a natureza e suas estações. A uva tem um momento exato para ser colhida (nem antes, nem depois) para garantir que o vinho seja perfeito. Assim é na nossa vida: as coisas só vão acontecer no momento certo, quando estivermos prontos para cada experiência. Tudo tem uma razão de ser. 

Pessoas que vivem todos os desafios sem fechar o coração nem perder essa estranha mania de ter fé na vida são fascinantes como aqueles vinhos raros, fruto das uvas guerreiras, com cores intensas, aromas que perfumam o mundo, sabores que ficam na boca e na alma. 

Esperar a hora da colheita (e lutar por isso) é uma prova de paciência, não há dúvida, mas pelo (pouco) que consegui entender da vida até agora, vale (muito) a pena.  😉

Sobre vinhos e pessoas

Tintos, rosés, brancos. Da Itália, do Chile, da França. Mais leves ou mais encorpados. Fundo amadeirado, aroma de frutas vermelhas. Jovens ou maduros. Assim são os vinhos, esta bebida deliciosa que deixa a vida mais gostosa.

Morenas, loiras, ruivas. Do Brasil, do mundo, do sul ou do sudeste. Suaves ou intensas. Discretas ou exuberantes. Jovens ou maduras. Assim são as pessoas, estes seres apaixonantes que deixam a vida mais cheia de cor.

Tantas nuances, tantas sutilezas. Tantos sabores, tantos aromas. Harmonizações perfeitas, nas quais um elemento ressalta e valoriza o sabor do outro, sem competição, apenas complementaridade. A arte de combinar os elementos certos, tão simples e tão complexa.

Mesmos ingredientes, diferentes safras, diferentes sensações e experiência. 

Tempos diferentes para maturar. Momentos diferentes para transmitir a mensagem de forma clara e segura. A forma certa de servir, temperatura e pressão. Paciência para se esperar o momento certo de abrir e degustar. 

Diferentes corpos, diferentes texturas. Sensações que permanecem e marcam, outras que desaparecem sem deixar vestígios. 

Sabores tão intensos que assustam no começo, até que se dê tempo ao tempo para que a química e a física façam sua mágica.

Assim são os vinhos, assim são as pessoas.

Um brinde às pessoas e aos vinhos memoráveis que a vida coloca no nosso caminho. Ainda estou para encontrar uma harmonização mais saborosa do que esta.

Então, é Natal…

Cá estamos nós de novo, preparando a ceia e pensando: cadê o ano que estava aqui? Para quem gosta de lista de resoluções, este é o momento de revisar os objetivos de 2015 e A) riscar itens com felicidade e orgulho ou B) ir ali cortar os pulsos e voltar já. 
O clima é festivo, família reunida, comida gostosa, brindes sem fim, presentes. Tem espaço para saudade, para orações, para rituais, para agito e para tranquilidade.

Sempre gostei desta época do ano, com suas mensagens de vida e esperança, além dos panetones, espumantes e outros quetais. Ah, sim, e ainda tem os presentes. Em tempos de crise (já acabou, 2015?), talvez tenhamos menos pacotes (ou menores), mas no fim das contas o que mais importa nesta história é mesmo o carinho envolvido no gesto.

E, pensando bem, mesmo que não tenhamos pacotes para abrir, certamente recebemos vários presentes durante este ano que está acabando. Algumas coisas podem ter saído bem diferentes do planejado — presente de grego também é presente, né? Brincadeiras à parte, se esses presentes não foram do tipo “era bem isso o que eu queria”, talvez tenham sido do tipo “era bem isso o que eu precisava”.  

No fim das contas, se olharmos com atenção, vamos perceber que a lista de bênçãos é certamente maior do que a dos perrengues. Saúde (pra dar e vender, ou com algumas oportunidades de melhoria, rs). Amigos daqueles com os quais a gente pode contar até debaixo d’agua, almas irmãs. Família para dar colo e aquele amor incondicional dos que nos conhecem no nosso melhor e pior. Um trabalho que nos permite ganhar nosso dinheiro e realizar aqueles sonhos que têm preço, mas muitas vezes, têm valor incalculável. Viagens por esse mundo lindo. Mesa repleta de comida e risadas. Pessoas que chegaram, pessoas que partiram, pessoas que voltaram — todas deixando/trazendo algo para nossas vidas. Nossos animais de estimação que são mais gente do que muita gente. Surpresas daquelas melhores do que a encomenda. Algumas decepções para nos lembrar que nem sempre as coisas são como queremos. Música, filmes, livros, esta arte que nos salva. Fé que não costuma falhar. Conexões virtuais, encontros reais. Descobertas, aprendizados. Sonhos e planos. Dias frios, cobertor quente. Dias quentes, vinho gelado. Frio na barriga e calor no coração. Um milhão de pequenos grandes motivos de gratidão.

Então é isso. Então é Natal. Que seja uma festa de luz, dentro e fora de nós. Que nunca nos falte alimento para o corpo e para a alma. Que saibamos perdoar, nos perdoar, e renascer. 

Feliz Natal!