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Varsóvia, a corajosa

4 de dezembro de 2017

Mesmo sendo descendente de poloneses, nunca tinha pensado seriamente em ir para lá. Naquelas férias, tinha pensando em ir para a Provence, mas, como estava caro, num impulso, mudei o roteiro e resolvi conhecer a terra de onde veio a família do meu pai. Decisão impulsiva e quase sem nenhum planejamento, algo impensável para a minha pessoa em um passado nada distante, um sinal das transformações pelas quais a polaca que escreve essas mal digitadas linhas estava passando.

Pela primeira vez na vida de viajante, meu voo de conexão – que deveria sair da Alemanha às 14h – foi cancelado, o que me fez chegar em Varsóvia, a capital do país, tarde da noite. Meu hotel ficava em frente ao Palácio da Cultura e Ciência, um dos pontos turísticos de lá, o que me fez ir dormir com uma sensação de “puxa vida, a polaca está mesmo na Polônia!”. No café da manhã, uma senhorinha desandou a falar comigo em polonês, crente que eu entenderia. Eita, ali eu não tinha cara de gringa! 😊

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Me sentido mais polaca do que nunca, fui caminhando até a Cidade Velha (Stare Miasto). Cheguei lá quando um grupo de Free Walking Tour (não há preço fixo, você paga no final de acordo com o que achou do passeio) estava saindo da praça. Resolvi me juntar ao grupo e foi fantástico! A guia era ótima, e enquanto andávamos pela região da Cidade Antiga, fui tomando conhecimento da história daquela cidade tão sofrida e tão corajosa. No grupo, havia um jovem americano que tinha largado tudo para mochilar pelo mundo, a primeira das amizades que eu viria a fazer na viagem.

Durante o tour, fiquei sabendo que a Varsóvia foi quase que totalmente destruída na Segunda Guerra Mundial, e que a Cidade Velha que estávamos vendo, tão linda com seus prédios “antigos”, era na verdade uma réplica reconstruída graças ao apoio da população, que doou tempo e dinheiro para ter ao menos aquele “pedaço” da cidade tal qual era antes da destruição causada pelos nazistas. Segundo a guia, um exemplo de crownfunding bem antes que o termo se tornasse conhecido. A arquitetura da cidade é uma espécie de colcha de retalhos, como vários estilos misturados. Ainda hoje, os prédios cinza construídos pelos russos são uma feia lembrança daquela época. Tirando o centro antigo, Varsóvia não pode ser definida como uma cidade bonita, como Cracóvia, tida como uma das mais belas da Europa. Mas, como disse a guia – não sem uma pitada de ironia (bairrismo, quem nunca?) – a “outra” cidade não foi quase totalmente destruída e se reergueu, literalmente, das cinzas.

No Castelo Real, há uma torre com um relógio. Ali, todos os dias um soldado toca clarinete na torre do relógio, na hora em que a torre foi bombardeada durante a guerra (não lembro o horário exato e não achei em lugar nenhum, mas era depois das 11h). Lembranças da guerra – cicatrizes de feridas tão profundas – estão espalhadas pela cidade toda, para lembrar e honrar os soldados e civis que morreram em Varsóvia durante a guerra. Em 1939, a cidade tinha cerca de 1.3 milhão de habitantes. Ao final da guerra, em 1945, restavam pouco mais de 400 mil pessoas.

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A guia, excelente, contou várias histórias interessantes sobre cidade. Fiquei sabendo que a sereia Sawa – cuja estátua fica na linda Praça do Mercado – foi “pescada” pelo jovem Wars no rio Vístula. Eles se apaixonaram e fundaram a cidade, “batizada” com uma junção dos seus nomes: em polonês, Warsawa. Sim, os poloneses também sabem ser românticos. 😉

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Também soube que o coração do compositor Chopin está enterrado na Igreja da Santa Cruz – com medo de ser enterrado vivo, ele teria pedido para que seu coração fosse retirado do corpo antes do sepultamento. Meio excêntrico, mas assim são os artistas, né não? Há outras referências a este famoso polonês pela cidade. No verão, há concertos gratuitos no Parque Lazienski, onde há uma estátua do músico.

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Continuamos a andar e chegamos na casa onde viveu Marie Skłodowska Curie, uma cientista polonesa ganhadora de dois prêmios Nobel, um deles por ter descoberto dois elementos químicos, o rádio e o polônio, esse último batizado em homenagem à sua terra natal. Casada com um francês, mudou-se para Paris, onde foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne. Um mulherão da porr@ essa polaca, hein?!

O tour da manhã terminou em um bar, onde a guia nos explicou que, ao contrário do que se pode imaginar, a bebida oficial do país não é a cerveja (pivo), e sim a vodka. Segundo ela, os poloneses bebem vodka quando estão felizes, para comemorar, e quando estão tristes, para afogar as mágoas. Então, basicamente, bebem vodka o tempo todo (bom, é fato que polacos são mesmo bons de copo). Ela contou, ainda, que o segredo para não ter uma ressaca dos infernos era intercalar shots de vodka com aperitivos bem gordurosos. Essa história toda só podia terminar de um jeito, né? Isso mesmo, um brinde com vodka polonesa, acompanhado de um aperitivo bem típico, pão caseiro com banha de porco e picles (lembra a história de ser gorduroso…então!). Resolvi não fazer desfeita e tomei o primeiro shot de vodka da vida. Na zdrowie!

Depois do almoço, haveria outro tour específico sobre a Segunda Guerra, que resolvi fazer para aprofundar algumas informações. O almoço foi num milk bar descoberto pelo Matt, meu amigo mochileiro, expert em encontrar lugares para comer bem e barato. Esses “bares de leite” são uma espécie de fast food polonês, frequentados, principalmente, por trabalhadores. O nome se deve ao fato de que, no período pós-guerra, a carne era racionada e a alimentação era composta, basicamente, por laticínios e vegetais. O milk bar em que almoçamos era diferenciado porque tinha um cardápio em inglês, uma raridade neste tipo de estabelecimento. Você paga no caixa e pega o prato no balcão. As mesas e cadeiras de fórmica, o altar com flores e as senhorinhas que serviam a refeição me fizeram lembrar muito da casa dos meus avós paternos, Vitória e Zefredo. Aquela sopa de legumes teve gosto de saudade.

O tour da tarde foi mais pesado, como era de se esperar, por conta dos horrores vividos ali durante a Segunda Guerra. Passamos por prédios onde batalhas importantes aconteceram, lugares onde civis foram executados (para pressionar a resistência, porque tinham irritados os nazistas ou, simplesmente, porque sim), monumentos em homenagem aos soldados, aos revolucionários que participaram do Levante de Varsóvia e até um para homenagear as crianças que apoiaram o levante e, por isso, perderam suas vidas. ☹

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Fomos até onde ficava o maior gueto judeu da Europa, que chegou a ter 380.000 pessoas – 30% da população da cidade, ocupando 2,4% do seu território. Essa área, hoje, é mais alta que o restante da cidade, porque foi reconstruía sobre a pilha de ruínas que restou depois que os nazistas destruíram o gueto. Lá, a guia lembrou do “Anjo do Gueto de Varsóvia”, Irena Sendler (Sendlerowa, nascida Krzyżanowska), que arriscou a vida para tirar mais de 2.500 crianças do gueto.

O dia tinha sido cheio de informações e reflexões. Resolvi terminar de um jeito leve, voltando até a Praça do Mercado, onde escolhi um restaurante com mesa na calçada (e vista para a estátua da sereia #muitoamor) e pedi meus dois pratos típicos favoritos, pierogi (pastel cozido, recheado com ricota) e golabki (charutos de repolho, recheado com arroz e carne). Estava tudo bem gostoso, mas os pratos feitos pela minha mãe e madrinha são beeeem melhores. Sabe como é, o tal tempero chamado amor.

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No segundo dia, fui conhecer o Museu do Levante de Varsóvia, que conta a história da luta armada do Exército Revolucionário para tentar libertar a cidade dos nazistas. A ofensiva começou quando os russos se aproximavam da cidade, que contava com seu apoio. No entanto, o Exército Vermelho acampou às margens do rio Vístula, e lá ficou esperando que os nazistas destruíssem os revolucionários, o que tornaria mais fácil para Stalin conseguir seu objetivo de expandir o comunismo na Europa pós-guerra. O Levante, que começou no dia 1º de agosto de 1944, durou 63 dias, até a rendição em 2 de outubro do mesmo ano. Neste tempo, estima-se que 16.000 mil integrantes da resistência morreram, juntamente com cerca de 60.000 civis, a maioria massacrada pelos nazistas como forma de pressionar os revolucionários. Após a rendição, Hitler ordenou que a cidade fosse evacuada, e sistematicamente destruída, quarteirão a quarteirão.

O museu – multimídia – é um dos mais impressionantes que eu já vi. O impacto foi tão forte que só depois que saí de lá percebi que não havia tirado uma foto sequer. O primeiro sentido mobilizado, logo na chegada, é a audição – gravações de aviões sobrevoando a cidade, bombas caindo e até um coração pulsando dão a ideia do horror vivido pela população naqueles dias. Há fotos, objetos e áudios obre a luta, além de réplica dos túneis de esgoto usados como esconderijo pelos membros da resistência. É possível, ainda, assistir a um vídeo que simula um voo sobre a cidade no fim da guerra – literalmente, um mar de escombros. Há vários testemunhos dos sacrifícios feitos pela população. Em um determinado momento, ouvi orações e cantos vindos de uma imagem de santo – as mesmas orações e cantos que eu tinha ouvido em casa, durante o enterro dos meus avós poloneses. Nessa hora, chorei. Entendi de onde vinham todo o orgulho e determinação dos poloneses que, mesmo depois de sofrer horrores inimagináveis, foram capazes de reconstruir sua cidade e recomeçar a vida. Assim são os poloneses da minha família, da minha comunidade: fortes, sem medo de trabalho, honestos, determinados e muito, muito orgulhosos de ser quem são.

Do museu, fui conhecer o parque Lazienki que, com seus lagos e o lindo palácio, foi um oásis perfeito para aliviar a alma depois das emoções da manhã.

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Antes de deixar Varsóvia, decidi aceitar a recomendação da guia e assistir ao jogo da Polônia contra a Alemanha, pela Eurocopa. O tour do dia anterior terminou em uma muralha com vista para o estádio de futebol de Varsóvia, onde, há alguns anos, a seleção da Polônia venceu, pela única vez na história, a seleção da Alemanha. Ao encerrar a história, a guia disse “eles não podiam ganhar de nós. Não aqui.” Ela disse que a cidade estaria muito animada e que valia a pena assistir ao jogo num dos bares do centro.

De fato, a cidade estava muito animada naquela noite de junho de 2016. O clima era de festa. Ruas cheias, caras pintadas, camisas da seleção, bandeiras do país – tudo pronto para torcer. Foi difícil achar um lugar, mas por fim achamos um bar com boa comida, bebida e vista para a TV. Nas mesas ao lado, poloneses quase enfartando durante todo o jogo. A Polônia jogou bem, e por vezes esteve perto de vencer o jogo. Uma das polonesas que assistia ao jogo no mesmo bar (e tinha cantado o hino em pé, com a mão no coração) puxou papo e contou a mesma história do jogo que a Polônia, jogando em Varsóvia, havia ganho da Alemanha. De novo, aquela frase: “eles não podiam ganhar de nós. Não aqui.”.

Torci como se polonesa fosse – como polonesa que, por descendência, sou! O jogo acabou em 0X0, mas o empate foi comemorado como vitória em final de Copa. Ao caminhar de volta ao hotel, andando pelas ruas cheias de poloneses celebrando com orgulho, entendi que algumas cicatrizes, por mais antigas que sejam,  nunca vão parar de doer.

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