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Ao ponto

8 de maio de 2015

No restaurante, o garçom me perguntou se eu queria minha carne ao ponto. Há alguns anos, a resposta seria “beeeem passado, pelamordedeus”, mas naquele dia a resposta foi “sim, ao ponto”. Continuo não gostando de carne sangrando, mas não precisa mais ser sola de sapato.

Depois que fiz o pedido, fiquei pensando nessa mudança de gosto, e em outras da mesma natureza: vinho seco em vez de doce, carne ao ponto em vez de bem passada, café menos doce, um pouco de pimenta na comida, peixe cru…

No passado, tudo isso parecia improvável, mesmo impossível. Penso que as mudanças de gosto à mesa refletem as outras mudanças pelas quais fui passando na minha vida. Se alguém tivesse me contado o que estava por vir, eu não acreditaria.

Plantei batatas, atendi telefone, me apaixonei por educação corporativa e hoje faço parte de uma equipe espalhada pelo mundo todo. Fui para a faculdade, fiz pós, hoje dou aula. Casei, separei, virei gato escaldado, estou perdendo o medo de água fria. Nasci em São José dos Pinhais, em uma colônia chamada Inhaíva, descobri o tamanho do mundo e hoje não quero mais parar de viajar. 

Era tímida a ponto de corar com um simples bom-dia, hoje consigo disfarçar bem (a maior parte do tempo, rs.). Fui uma menina de cabelo na altura da cintura, hoje sou uma mulher de cabelos cada vez mais curtos. Usava apenas esmalte clarinho, hoje sou bem chegada em um vermelhão. Desci do salto e me apaixonei pelas sapatilhas. Ainda amo preto, mas hoje já coloco um pouco de cor aqui e ali. Não usava maquiagem, hoje acho que rímel é vida. Era louca por perfumes doces e fortes, hoje gosto de fragrâncias florais e suaves. 

Muita coisa mudou, mas outras tantas (as mais importantes) continuam iguais: o amor pela família, o orgulho pelas minhas origens, os valores que meus pais me ensinaram. Continuo falando com meus cachorros como se eles fossem gente. Não furei a orelha ainda (apesar da pressão do mundo, rs) e tenho muita preguiça de usar joias e afins. Continuo achando que a broa, o cuque e a maionese da minha mãe são as melhores comidas do mundo — ah sim, continuo comilona. Não consigo deixar de admirar as araucárias do quintal. Meus amigos continuam sendo meu porto seguro. Cada vez mais acho que meus livros, filmes e música são a melhor cura para muitas dores. Sigo amando a Itália e achando que já vivi por lá (e sonhando em viver de novo). Continuo tendo medos absurdos e coragens inacreditáveis (o que mudou foram os medos e as coragens). E continuo vivendo e escrevendo a vida, porque este é o jeito que a minha alma achou para dividir (pelo menos um pouco) o que se passa aqui dentro com o mundo lá fora.

Trilha: Boyce Avenue, Demons

http://youtu.be/9DLtzc9KLiw

Imagem: Pinterest

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From → Proseando

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