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Sem anestesia

1 de maio de 2015

No dentista, uma consulta particularmente longa. Parte do procedimento envolvia dor, e minha dentista perguntou se eu aguentava ou se queria anestesia. Perguntei se era uma muita dor e ela me disse que seria um pouco.

Resolvi que não queria anestesia, e depois descobri que o “um pouco” virou “vários poucos”. Eu só ficava pensando em quanto aquilo ia durar e questionando se não deveria, afinal, ter tomado a tal anestesia.
Em algum momento, a tortura acabou. Já nem me lembrava da dor, e estava feliz por não ter optado pela anestesia e por estar sentindo minha boca, sem aquela sensação horrorosa de amortecimento.
No dentista, assim como na vida, muitas vezes optamos pela anestesia para fugir da dor. Desligamos o coração e a alma e seguimos fazendo de conta que não nos importamos, que estamos bem assim, que está tudo certo, que não temos medo nem precisamos de ninguém. Às vezes, a anestesia é tão forte que acreditamos mesmo que estamos felizes assim, com essa ausência de dor.
O problema é que, ao nos anestesiarmos contra a dor, deixamos de sentir os sabores da vida e acabamos amortecidos para a maioria das emoções. Não dói, mas também não apaixona, desafia, instiga, excita, emociona. Do alto de nossa zona de conforto, estamos protegidos da dor, mas o preço a pagar é uma vida pseudo-vivida, morna, cinza, meia boca.
Às vezes, a dor é necessária. Breve ou longa, profunda ou leve, uma hora passa. Quando dói, sabemos que estamos vivos. Cerramos os dentes, choramos um pouco, mas no final saímos inteiros, e mais fortes, e capazes de sentir todas as emoções da vida. 
Óbvio que existem dores na vida, tanto do corpo quanto da alma, para as quais precisamos de ajuda e remédio. Não tem sentido algum não lançar mão dos recursos que a gente tem quando precisa. 
O ponto é que, nos dias de hoje, fugimos da tristeza como vampiro foge da água benta. Existe uma supervalorização da felicidade, como se todo mundo tivesse a obrigação de viver em um estado constante de alegria total. Mas tristeza faz parte da vida, assim como alegria! São duas faces da mesma moeda. Não tem nada de errado se sentir meio para baixo, sem vontade de cantar uma linda canção. Está triste? Chore, mas depois lave a cara e toque a vida. Está doendo? Converse com a dor, entenda o motivo, aprenda a lição, e siga em frente. Leva um tempo, mas uma hora, quando a gente menos espera, a ferida cicatriza e estamos sorrindo de novo.
Acho que fingir que está tudo bem quando não está é um desperdício gigante de energia. Encarar os fantasmas de frente é a melhor maneira de vencê-los. Só não vale ficar chafurdando na tristeza e não desapegar nunca mais. Afinal, a dor pode ser inevitável, mas o sofrimento (prolongar a dor) é opcional. 
Trilha: Pink, Try
Imagem: reprodução Pinterest
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From → Proseando

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