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Milão – Parte 5: O refeitório e o teatro

1 de maio de 2014

Gosto muito de arte, em todas as suas expressões. Algumas me tocam mais do que outras, porque arte é assim, como o amor: tem de ter química para funcionar. 😊

Quando decidi que iria a Milão, fui pesquisar a cidade e descobri que uma obra prima de Leonardo da Vinci está lá, no Cenacolo Vinciano: nada mais, nada menos que “A Última Ceia”. Os ingressos são mega disputados e limitados, e não consegui comprar para a data que eu queria no site oficial.

Fuçando em blogs de viagem, descobri a TickItaly, que vende ingressos e pacotes para várias atrações na Itália. Acabei comprado um tour guiado (em inglês) que incluía uma visita ao Cenacolo e a uma igreja com pinturas de seguidores de Leonardo.

http://www.tickitaly.com/

No dia marcado, lá estava eu no ponto de encontro. A guia foi pontual e logo estávamos a caminho do “encontro com Leonardo”. Confesso que comprei o pacote apenas para ver a obra de Da Vinci, mas o tour todo foi uma grata surpresa.

A guia era excelente e no caminho foi dando detalhes sobre a igreja de Santa Maria delle Grazie, vizinha do Cenacolo, que era o lugar onde os frades do convento faziam suas refeições. Os todo-poderosos Sforza patrocinaram a construção da igreja para que, em troca, os frades rezassem por suas almas, já que eles estavam ocupadas demais com suas disputas e conquistas. A guia nos chamou atenção para os símbolos dos Sforza nas paredes da igreja: a águia, a serpente engolindo um homem (segundo a guia, às vezes esse símbolo aparece na forma de um dragão…sempre faminto, engolindo alguém) e uma maçã, está última para representar a origem dos Sforza, que eram agricultores.

O exterior da igreja é lindo, mas simples, nas cores terracota e branco. A guia explicou que isso aconteceu por questões de custo (os materiais usados eram mais baratos) e também porque Milão nunca gostou de “se mostrar”, preferindo uma elegância discreta.

Quando Ludovico Sforza decidiu que a igreja seria o local onde ele e a esposa, Beatriz, seriam enterrados, ele decidiu reformar parte da igreja. A guia chamou atenção para a diferença de estilos dentro da igreja: a parte mais antiga em estilo gótico, e a mais nova (e clara) no então moderno estilo renascentista (Ludovico achava o estilo gótico ultrapassado). Beatriz foi enterrada lá, e dizem que seu corpo continua em algum lugar no subsolo (os frades esconderam para evitar que os inimigos dos Sforza violassem o corpo). Já Frederico foi levado prisioneiro para a França, onde morreu.

Em 15 de agosto de 1943, a igreja e o convento foram bombardeados, e grande parte do convento foi destruído. Como que por milagre, apenas duas paredes permaneceram intactas, sendo uma delas aquela pintada por Da Vinci.

A obra está bastante desgastada pelo tempo (não pode fotografar, snif) porque Leonardo decidiu não usar a técnica do afresco, usada na época em paredes, porque ele queria poder retocar e alterar a obra na medida em que trabalhava. O trabalho levou três anos para ser concluído. Neste meio tempo, às vezes Leonardo pintava por horas a fio. Em outras, ficava horas apenas estudando a obra. Havia dias em que ele ia até o Cenacolo, dava dois ou três pinceladas e ia embora de novo. Gênio é gênio, e o resultado é muito impressionante.

De acordo com a guia, a obra causou tanto furor porque Leonardo retratou a Última Ceia de modo nunca visto antes. Além de trabalhar a perspectiva, ele optou por retratar os sentimentos de cada um dos personagens deste momento tão importante da vida de Jesus. Os apóstolos são retratados não como santos, mas como pessoas lidando com suas emoções à flor da pele. E Judas não é excluído da cena, como costumava a acontecer até então. Aqui, uma curiosidade contada pela guia: como a obra estava demorando, os frades começaram a ficar #chatiados, e o “chefe” deles foi tirar satisfação com Leonardo, que disse precisar de mais tempo porque estava estudando com cuidado os dois principais personagens, Jesus e Judas, mas que tinha acabado de achar o rosto ideal para o Judas. Sim, o rosto do frade reclamão. Gênios são temperamentais, não é?

Pudemos ficar dentro do Cenacolo apenas 15 minutos, mas para mim super valeu a pena. Nunca mais vou olhar uma pintura da última ceia com os mesmos olhos.

De lá, fomos para a igreja de San Maurizio al Monastero, onde estão pinturas de seguidores de Da Vinci, com destaque para Bernardino Luini. Como a própria guia, bem-humorada, disse, o nome “does not ring a bell”. Ou seja, nunca tinha ouvido falar dele. A igreja é pequena e, por fora, é super simples, tanto que eu tinha passado na frente antes e nem tinha notado. Quando você entra, porém…UAU! As pinturas são deslumbrantes! O tal do Luini ganhou o meu respeito, e com certeza aprendeu direitinho a lição com o mestre Leonardo. A igreja era também um convento feminino, e é possível ver o espaço no qual as freiras ficavam confinadas. Lá, também, lindas pinturas ornamentam as paredes.

Aqui, vou abrir um parênteses sobre o Da Vinci: tem exposição genial acontecendo em Milão, na Piazza della Scala (onde não por acaso tem uma estátua do artista). O nome é Il Mondo de Leonardo (O Mundo de Leonardo) e permite conhecer melhor o trabalho desse gênio. A mostra tem reproduções físicas de algumas de suas criações nas áreas de arte, arquitetura e mecânica (o submarino, a máquina do tempo, a máquina voadora entre outras), além de restaurações digitais da Última Ceia e da Monalisa e a reconstrução digital do Cavalo Gigante dos Sforza. A exposição é muito interativa e tem muita informação interessante. Entre outras coisas, é possível “folhear” virtualmente o famoso Códex com os desenhos e anotações de Da Vinci. Curti bastante. Fecha parênteses.

A terça-feira ainda reservava outra experiência artística: uma ópera no teatro Scala. Nunca tinha assistido ópera, e achei que este seria o local perfeito para a minha estréia.

Então, lá fomos nós, elegantes e faceiros, para ver Le Troyens, do Berlioz. A ópera é baseada na Eneida, de Virgilio, que conta a saga de Eneias, sobrevivente da Guerra de Tróia, até sua chegar à península itálica.

Mas falemos da ópera em si. O Scala é um teatro magnífico, e só isso já vale o programa. A produção é grandiosa, com mais de 100 pessoas em cena. Os figurinos, por alguma razão misteriosa, eram da Revolução Francesa em vez dos esperados trajes gregos e troianos. A soprano tinha voz poderosa, mas gostei mais das partes em que todos cantavam juntos. Como a ópera é cantada em francês, não entendi patavinas do que eles cantavam, mas achei bonito mesmo assim. E quando o Cavalo de Tróia veio ao palco, achei o máximo! Pensa num coisa impactante.

Ah, um pequeno detalhe: a duração da ópera em questão era de míseras cinco horas. Não, você não entendeu errado, eram 5 horas mesmo. Nós assistimos cerca de duas horas (os dois primeiros atos) e saímos à francesa. Todos concordamos que cinco horas era um tanto muito, e fomos em busca de um lugar para jantar.

Dessa vez, o lugar escolhido foi um restaurante na galeria Vittorio Emanuelle. O lugar é lindo e perfeito para se olhar a vida passar enquanto se degusta em bom vinho e uma boa massa.

http://www.lalocandadelgattorosso.it/

Aquela foi a “última ceia” com a Lu e o Peter em Milão, já que no dia seguinte eu iria para Verona. Engraçado como o tempo passa rápido quando se é feliz. Me senti em casa nesta cidade porque tive os melhores anfitriões do mundo. Sou muito grata por ter amigos como eles e por ter a oportunidade de viver momentos tão especiais. Viajar até tem preço, mas dizem que é a única coisa na vida que a gente compra e que nos torna mais ricos. Eu concordo. Meus tesouros de viagem (lembranças e emoções) ninguém tira de mim.

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From → Proseando, Viajando

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