Skip to content

Essa tal felicidade

27 de maio de 2013

Nunca na história do mundo corporativo as empresas fizeram tanto para melhorar suas práticas de gestão. Era de se imaginar, então, que as pessoas estivessem sorrindo à toa nos corredores das empresas, mas não é exatamente isso o que está acontecendo. Na verdade, o que se vê é exatamente o contrário, com um número cada vez maior de pessoas infelizes em seus empregos.

Quer fazer um teste simples e rápido? Dá uma espiada no Facebook. Aposto que você vai encontrar posts de amigos insatisfeitos com o trabalho. Às vezes, isso está disfarçado com algum meme ou brincadeira, mas muitas vezes o desabafo é feito com todas as letras.

A revista Você RH traz de maio discute justamente o dilema da felicidade (ou falta dela) nas organizações, em uma matéria bem interessante trazendo o ponto de vista de várias “autoridades” como Mário Cortela, Vicente Falconi e Haroldo Mota. Este texto traz minha humilde visão sobre o tema, que em alguns pontos é similar à deles e, em outros, é apenas o que eu acho sobre o assunto. E o que eu acho, me pertence.

Para começo de conversa, acho que muita gente confunde engajamento com felicidade. Como diz o ditado, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Engajamento pode ser trabalhado/ influenciado/estimulado pela empresa, e se traduz a um sentido de conexão, de fazer parte, de vestir a camisa e abraçar a causa da empresa. Criar um ambiente aberto, justo, onde as pessoas sejam ouvidas e respeitadas ajuda bastante. Meritocracia também. Um bom salário, um bom clima, liderança forte, um gestor que apóie o desenvolvimento, metas desafiadoras porém justas, tudo isso conta pontos na matemática nada exata do engajamento. Por outro lado, falta de comunicação, falta de apoio, paternalismo, falta de transparência, assédio moral, falta de espaço para criar e contribuir são itens que detonam o engajamento de qualquer empresa do universo.

Acho que equipe engajada é algo um pouco parecido com um time de futebol daqueles que combina técnica e amor à camisa — não tem bola perdida, é gol na certa. Sabe a seleção dos sonhos, como aquela do Brasil em 1970? Então, por aí. Se essa referência for muita antiga, dá um pulinho no Google que tudo se resolve.

Ter uma equipe engajada é bom e todo mundo gosta — principalmente porque isso se reflete em resultados. Não são poucas as pesquisas sérias que demonstram que empresas com alto índice de engajamento apresentam resultados superiores às outras. Para citar apenas uma, o Gallup mostra que empresas com empregados altamente engajados tiveram aumento de 342% no lucro por ações em relação às demais. Contra fatos, não há argumentos, e as empresas cabe trabalhar para criar um ambiente propício ao engajamento daquelas pessoas que queremos e precisamos engajar. Voltando à metáfora do futebol, precisamos de todos os nossos Messis apaixonados pelo nosso time e entregando todo o seu potencial, da mesma forma que os demais jogadores que agregam valor ao time. Aqueles jogadores encrenqueiros, que vivem acertando a canela dos outros e criando confusão, eu acho melhor vender o passe. De preferência, para o time rival.

Abre parênteses: que equipes engajadas entregam mais e melhor, eu nunca duvidei. Agora, não acredito que engajamento seja, sempre, sinônimo de produtividade. Conheço pessoas que são engajadas até o último fio de cabelo, trabalham horas sem fim e, mesmo assim, não conseguem entregar. Mas essa é uma outra história. Fecha parênteses.

Definir felicidade vai ser mais difícil do que foi definir engajamento. Afinal, trata-se de um estado de espírito que, portanto, varia de pessoa para pessoa. Para mim, a felicidade depende de uma série de fatores, sendo o trabalho um deles. Ora, se é um fator de vários, é meio maluco imaginar ou querer fazer do trabalho sua única fonte de felicidade. E outra: empresa não tem obrigação de fazer ninguém feliz. Empresa tem obrigação de cumprir o contrato de trabalho firmado entre as duas partes, e fazer isso da melhor maneira possível, no melhor ambiente possível — que também depende das pessoas. Agora, trabalho é trabalho, não é um parque de diversões. A gente pode e deve se divertir enquanto trabalha (até porque passa mais tempo trabalhando do que em casa, vamos combinar), mas a gente vai para o emprego para produzir, criar, alcançar objetivos, vencer desafios, aprender. Tem prazo para entregar o relatório, tem de atender bem ao cliente, tem de cumprir com as regras e normas, tem de se esforçar para melhorar sempre. Até os artistas, a quem atribuímos uma vida mais “fácil”, porque trabalham com elementos lúdicos, têm de enfrentar horas e horas de ensaios para atingir a perfeição. Até quem resolveu jogar tudo para o alto e abrir uma barraca para vender coco na praia tem de lidar com os clientes — e nem todos os clientes estão no melhor dos humores o tempo todo, não é?

Como a felicidade é a soma de vários fatores, o melhor trabalho do mundo não será suficiente para sustentá-la caso outros aspectos da vida não estejam caminhando bem, e vice-versa. Imagine que você teve um dia perfeito na “firma”: o projeto foi entregue com sucesso, seu chefe reconheceu sua contribuição, o cliente está feliz, o bônus foi gordinho e tudo mais. Aí, você chega em casa e a esposa/o marido está emburrado e quer discutir a relação. Se é solteiro, descobre que o cachorro destruiu o jardim. Se não tem cachorro, vai tomar banho e descobre que o chuveiro queimou. Batata, a felicidade vai ficar arranhada. O inverso também é verdadeiro. Você teve o encontro perfeito com o homem da sua vida, a reforma terminou e ficou perfeita, você emagreceu, seu time ganhou de goleada, Aí, você chega na “firma” e encontra o chefe atacado, descobre que o projeto não foi aprovado, que vai ter de refazer o relatório etc. Entender que a empresa não é responsável por resolver todos os seus problemas já é meio caminho andado para evitar frustração.

Vejo muitas pessoas infelizes no trabalho, trocando de emprego o tempo todo em busca da tal felicidade em novos cargos, mercados, chefes. Acontece que não adianta nada mudar todos os fatores externos se a causa da infelicidade estiver dentro de você. Se você não lida bem com hierarquia, o melhor chefe do mundo ainda não será suficiente. Talvez sua felicidade esteja na barraca de coco. Talvez, porque o cliente é o chefe mais exigente de todos.

Também acredito que engajamento e felicidade não estejam diretamente relacionados. Até acho que é mais fácil ser feliz quando você não está assim tão comprometido com o resultado do jogo. É meio como estar apaixonado: você gosta de alguém, e teme perder a pessoa ou ver algo de ruim acontecer com a criatura, e isso diminui um pouquinho a felicidade geral da nação. No trabalho é igual. Se você veste realmente a camisa da empresa e sabe que algo vai mal, não tem como não ficar preocupado, e aí o índice de felicidade cai.

Não tem errado em querer ser feliz e buscar ativamente essa felicidade. Ser feliz dá trabalho mesmo. O que está errado é achar que a empresa tem de colocar você no colo e resolver todos os seus dilemas existenciais, emocionais e transcendentais. Pode esperar sentado, queridão. A empresa tem de te ajudar a resolver os problemas corporativos. Lembrando que a empresa é feita de gente. Tipo, eu, tipo você.

http://youtu.be/Zx1_6F-nCaw

Anúncios
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: