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O contador de histórias (vou de táxi)

25 de abril de 2013

Até tentei, mas não teve jeito de aprender a dirigir. No começo, isso me incomodou muito, mas depois aceitei minha incompetência em vencer esse medo e relaxei. Os postes da rua agradecem. 🙂

Como não dirijo, vou de taxi para lá e para cá (paga-se o preço, né?) e acabo conhecendo figuras interessantes. Geralmente prefiro ficar quieta, respondendo apenas se me perguntam algo (curitibano, eu sei), mas nem sempre isso é possível. Ontem foi um desses dias. Quando entrei, o senhorzinho, com jeito de avô, já foi falando do tempo maluco de Curitiba. Resmunguei alguma coisa, fuçando no celular,  mas ele não se abateu com a  miss simpatia e perguntou se fazia tempo que eu morava aqui. Disse que desde sempre, ele comentou que, então, essas mudanças todas eram normais para mim. E emendou: depois de seis anos aqui, até que já me acostumei também. E ficou quieto, só esperando eu morder a isca. O que eu fiz, ainda bem. Ele nasceu e morou em Foz do Iguaçu quase a vida inteira. Quando descobriu que eu não conhecia a sua terra muito amada, montou um roteiro completo, cheio de dicas e conselhos.  

“Quando for às Cataratas, tem de ver o lado Argentino também, para ver a beleza por todos os ângulos. Ah, e se não for ao Macuco Safári, nem diga que viu as Cataratas, porque não viu. E não precisa ter medo, porque os barcos são do meu compadre e, em mais de 25, ele nunca teve um acidente (aquele que teve foi barco clandestino). Se for ao Paraguai, cuidado com os golpes (se você não prestar atenção, vai comprar aparelho de som e leva tijolo). O hotel Mabu é ótimo, e o único com águas termais (as outras são aquecidas, é diferente), e o dourado recheado que servem lá é uma delícia. Vai com umas amigas, porque vai ser mais divertido e vocês dividem as despesas. De noite, vá passear em um cassino. E não deixe de ir visitar Itaipu. Vá com um calçado confortável, porque você vai andar muito. Abre 8h no sábado, e se chegar atrasado não entra. Imagine que você vai estar lá e o guia vai dizer que você está a muitos metros abaixo da água. Não precisa ter medo, a construção é perfeita, se jogarem uma bomba lá, não vai acontecer nada.”

Isso tudo contado com um jeito envolvente, parando aqui e ali para que eu fizesse alguma pergunta que levasse ao próximo ponto. Quando comentei que a construção deve ter sido um projeto e tanto, ele continuou.  

“Sabe menina, conheço a hidroelétrica desde essa época. Trabalhei na obra, dirigindo um caminhão assim e assado. Quando eu parava para almoçar, outra pessoa assumia o volante, porque o trabalho não podia parar nunca. Depois que a obra terminou, consegui uma vaga na área de telecomunicações, e trabalhei lá até me aposentar. Foram 30 anos ao todo, de segunda a sábado, das 8h às 18h.”

A essa altura eu já tinha entendido a paixão por Itaipu e pelas Cataratas, que ele considera um dos lugares mais bonitos do Brasil (e olhe que conheço lugares bonitos, menina). Ele continua: “os cariocas vivem dizendo que eles têm o ponto turístico mais bonito do Brasil, mas eles têm um dos mais bonitos, mas não têm as Cataratas…”.

Não resisti e tive de perguntar como ele tinha vindo parar em Curitiba, e ele diz que as filhas vieram estudar aqui. Ah, faz sentido…

“Mas, sabe menina, que morar aqui era um sonho meu e da minha esposa desde que passamos a lua de mel aqui (descemos a serra de trem, fomos à praia, pense em um passeio lindo) e sempre falávamos que, quando a gente se aposentasse, viria morar aqui. E viemos.”

Minha habitual reserva e silêncio eram coisa do passado, e continuei perguntando, porque queria saber como o táxi tinha entrado nessa história.

“Então, menina, quando me aposentei eu fiquei doente. Fiquei deprimido porque não tinha nada para fazer, e meu médico mandou que eu me virasse e achasse alguma coisa para fazer. Aí, minha filha arrumou o negocio para mim. Sabe essa conversa gostosa que a gente está tendo, menina? Tenho isso todo dia (sorriso grande no rosto).”

Quando vi, já tinha chegado ao destino. Ao se despedir, ele disse: “vai logo conhecer Foz do Iguaçu. Quando você estiver visitando Itaipu, aposto que você vai lembrar de mim, menina.”

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From → Proseando

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