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Minha velha infância

29 de março de 2013

A manhã estava ensolarada, céu azul, brisa leve. Em dias assim, o Vinícius troca tranquilamente todos os brinquedos por um passeio no meio das árvores. Ele passa um tempão explorando, correndo, curtindo. Às vezes, faz uma pausa para deitar na grama e se sai com algo do tipo: “céu munito madinha”. 

De repente, me ocorreu que meu afilhado está, hoje, vivendo uma infância parecida com a que eu e meu irmão tivemos. Felizmente, as vacas são mais gordas hoje do que na nossa época, mas o dinheiro curto nunca nos impediu de sermos crianças bem felizes. Nascemos e crescemos em um pequeno sítio, cercados de amor e de mato por todos os lados. Era esse o nosso “pedaço”, onde brincávamos até anoitecer. Quando não tinha nenhum primo ou amigo por perto (o que era comum, porque vivíamos em bando), os dois davam conta do recado. Éramos bem parceiros nas brincadeiras (se não tem tu, vai tu mesmo). Tomamos muito corridão de vaca brava no potreiro, mas escapamos ilesos para contar a história. Por pouco, rs.

As minhas casinhas eu construía com latas e potes vazios. As bolas eram de plástico (teve uma época em que eram dadas como brinde pelo café Damasco, então tínhamos várias). Meu irmão colecionava bolinhas de gude. Eu nunca fui muito de bonecas, não. Gostava de brincar de dar aula. Quando batia o cansaço, um lanchinho ─ broa caseira com carne de porco, cabrestinho (é assim que conheço o que muitos chamam de cueca virada ou crostoli) e afins. Claro, também gostávamos de ver TV (a primeira era preto e branco, olha que vintage!). Smurfs, He Man, Thunder Cats, Manda Chuva, Os Jetsons, Flintstones…ah, que delícia!

Assim como o Vini, também morei perto dos avós paternos e da minha madrinha (os avós maternos não moravam tão perto, mas amor não tem distância). Assim como ele, eu fazia da casa deles uma extensão da minha. Eu ia lá todo santo dia, a ponto de o caminho ficar marcado no meio do mato. Lembro do cheiro do chá de camomila da vó. Lembro que eu vivia atacando a gasosa de limão que ela gostava de tomar. Volta e meio a gente roubava um Sonrisal para fazer de conta que era hóstia quando brincávamos de missa. Lembro do pão de ló com cobertura de suspiro da madrinha, e vivia me “associando” nos perfumes dela. Casa de madeira, arejada, com um jardim bonito onde eu plantei um pé de hortênsia. Lembro dos cachorros, especialmente o Luli. Lembro do vô me chamando de Zélinha e falando comigo em polonês, mesmo sem eu entender. Lembro quando íamos trabalhar (ok, os adultos iam trabalhar e nós brincar) em uma roça longe de casa e a vó mandava o almoço (sempre tinha virado de feijão), que comíamos em pratos de esmalte.

Na época da Páscoa, sempre lembro da infância com mais força. Lembro que íamos para a igreja de quinta até domingo, todos os dias, e que eu achava os ritos tristes e lindos. Lembro que, na casa da minha avó materna, rezávamos a via sacra ao ar livre durante toda a quaresma e que, às vezes, a sexta-feira santa era passada em algum lugar nas montanhas, perto de cachoeiras, uma oportunidade para rezar e estar com as pessoas queridas. No sábado de Páscoa, todas as famílias polonesas preparavam uma cesta com comida para abençoar na igreja. Aquela comida simples (pão, carne, ovo, raiz forte) era comida no café da manhã (não podia deixar cair nenhuma migalha), e tinha gosto de gratidão e esperança. Claro, também tinha a parte do chocolate. Minha mãe tinha duas pequenas cestas de madeira, que ela recheava com um coelho de chocolate, um ovo e (se desse) alguns chocolates miúdos. A maior felicidade era abrir aquele ovo lindo (o papel era beeeem colorido) e contar quantos bombons tinha dentro.

Amor que não se mede, amor que não se pede, que se dá e recebe e só fica maior. Minha infância já ficou para trás faz tempo, mas esse amor não tem prazo de validade, e dura para sempre, amém.

A trilha de hoje vem de um desses fragmentos de memória da infância. Eu estava no quarto da minha madrinha, dia bonito, janela aberta, e o rádio de pilha, vermelho e branco, ligado. Zapeando (essa palavra nem existia naquela época, mas enfim…) pelas estações AM (era só o que pegava), encontrei essa música, que achei o máximo. Como o mundo tem girado desde então…

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From → Proseando

One Comment
  1. Ale Surek permalink

    música do “príncipe”, o máximo! saudades Zeiloca…

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