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Jovens talentos, os rebeldes com causa

23 de janeiro de 2013

Trabalho na área de treinamento há quase 15 anos. Sempre na mesma área, mas mudando de função muitas vezes, experimentando coisas diferentes, aprendendo sempre. Já comentei aqui que entrei na área por acaso, mas continuo por convicção e paixão absolutas. Acho que esse foi o jeito que a vida achou para realizar meu sonho de infância, que era ser professora – não é exatamente igual, mas é ligado à aprendizagem e incorpora o meu sonho de adolescente, que era trabalhar em uma grande empresa e ter uma agenda cheia de reuniões, telefonemas e viagens. Já ouviram aquela frase “cuidado com os seus sonhos”? Pois é, a agenda anda tão cheia que transborda. 😉

Comecei com educação a distância, depois incorporei os presenciais. Desenhei cursos, gerenciei a implementação de projetos, coordenei equipe de desenvolvimento, voltei a gerenciar projetos e hoje, sou responsável pela gestão de treinamento de duas grandes áreas. Nunca fui treinadora porque sempre preferi o backstage ao palco. Se bem que, recentemente, tive algumas experiências nessa área e até que gostei. Deve ser efeito de Urano em Áries, só pode.

Ao longo dessa história toda, eu fui responsável por desenhar e coordenar o currículo de treinamento de três edições do programa trainee, algo delicioso e desafiador na mesma (grande) medida. De longe, trabalhar com essa moçada foi uma das coisas que mais gostei de ter feito. Mas, sendo bem sincera, achava que três era um bom número e que, por conta das mudanças na área e na minha função, isso estava fora do meu escopo. Então, meu primeiro pensamento quando me chamaram para trabalhar com a quarta turma foi “acho que não resgatei esse carma”. Batata. Não tinha resgatado mesmo, porque ainda tinha (e tenho) muita coisa a aprender sobre jovens talentos.

Das outras vezes, a estrutura da área era diferente, e eu tinha pouco contato com a turma. Eu desenhava o programa e tinha de garantir a entrega, mas o acompanhamento em sala de aula era feito por outra pessoa. Dessa vez, eu peguei o “pacote completo” e pude conhecer um pouco mais as pessoas “por trás” de cada trainee. Querendo ou não, temos rótulos para quase tudo na vida, e é muito comum tirá-los da prateleira sem pensar duas vezes.

Via de regra, os trainees são definidos/percebidos como talentosos, inteligentes, com excelente formação, autoconfiantes, proativos. O outro lado da moeda traz rótulos como arrogantes, críticos, impacientes, ansiosos. O conjunto da obra gera, muitas vezes, um “pé atrás” quando um trainee chega nas áreas, o que dificulta o processo de integração.

Para começar, trainee não é super-herói, nem super-vilão. Trainee também é gente. Gente jovem, cheia de perguntas, dúvidas e inseguranças. Eles não são donos da verdade nem sabem de tudo, mas querem aprender tudo — é daí que vem a abundância de perguntas. Sim, eles têm pressa e sim, costumam ser ansiosos. Eles sabem que isso é um calcanhar de Aquiles e sabem que precisam gerenciar melhor esse aspecto. Eles criticam e desafiam o status quo porque olham para as coisas sem os filtros (preconceitos?) que incorporamos com a experiência. A forma como isso é feito também costuma ser uma área de desenvolvimento. Acertar o tom é fundamental para que consigam “encaixar” os argumentos e combater a fama que têm de reclamar de tudo. Eles são rebeldes com causa e precisam de recebem respostas claras e coerentes. Eles gostam e precisam de feedback, e agem sobre isso. Eles são abertos e multimídia, porque isso faz parte do seu DNA. A tal arrogância, tão famosa, pode ser, simplesmente, timidez. Pode significar algo do gênero “não te conheço, não sei se posso confiar em você, não vou me abrir agora”.

Quando conseguem combinar a criatividade e capacidade de análise à execução, os resultados são excelentes. Eles querem se identificar com os valores da empresa, gostam de trabalhar em time, são engajados e buscam o tal sentido da vida e a felicidade. A relação com outras gerações requer paciência e compreensão dos dois lados, mas a convivência harmoniosa e produtiva entre Xs e Ys é possível, se cada um conseguir aproveitar o que o outro tem de melhor. Diversidade também é isso.

Acho fundamental trazer sangue novo para a organização, mas é preciso fazer isso de forma cuidadosa. Escolher gestores que gostem e saibam lidar com essa energia toda, para que possam ajudar a transformar potencial em desempenho. A área de alocação tem de “combinar” com a formação e personalidade de cada trainee, e oferecer oportunidades concretas de desenvolvimento e colaboração. Usar esse tipo de profissional para atividades rotineiras e pouco desafiadoras é assassinato corporativo. Feedback constante e coaching não podem faltar. Alinhar expectativas desde o início também é fator fundamental. Não dá para ser CEO em 2 anos — existe um caminho a percorrer, entregas a fazer, habilidades a desenvolver, uma cultura para entender, alianças a construir, aprendizados a consolidar etc.

Jovens gostam de interagir, de colaborar, de contribuir, analisar, sugerir. Gostam de abordagens diretas e tangíveis. Se as atividades propostas não levarem isso em conta, tendem a ficar entediados rapidamente. O componente lúdico tem de ser usado com moderação, e sempre com propósito e significado. Estudos de caso, simulações, análise de cenários e debates costumam funcionar bem. A abordagem “professor sabe tudo”, que não constrói o conhecimento junto com o grupo e não considera suas habilidades, necessidades e conhecimento prévio, não funciona. Vamos combinar que nem eu, que sou geração X, tenho paciência para isso.

Tecnicamente falando, acho que há alguns ingredientes que não podem faltar em nenhum programa trainee. Eles precisam conhecer a organização (estratégia, propósito, valores etc.), precisam entender o mercado no qual esta empresa está inserida (não dá para trabalhar em banco e não entender o mercado financeiro, por exemplo), precisam conhecer as diferentes áreas e funções e como tudo se relaciona e precisam desenvolver algumas competências técnicas e comportamentais para navegar melhor no mundo corporativo. Formação específica e complementar vai depender da área de alocação.

Como as mudanças são a única coisa certa na vida, o programa trainee não está mais comigo. No entanto, se o carma me acionar de novo (we never know, rs), eu certamente manteria os elementos que mencionei acima (o quê ensinar), mas mudaria o “como”. Para começar, deixaria os rótulos no lugar ao qual pertencem: as prateleiras de produtos.

A trilha de hoje é vintage e atual ao mesmo tempo. A música é de 1968, mas eu acho que o espírito livre dos jovens não mudou tanto de lá para cá.

 

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